CONTOS

DA MONTANHA
OBRAS DO AUTOR

Edies do Autor

POESIA:

Ansiedade - 1928 (Fora do mercado). Rampa - 1930 (esgotado). Tributo - 1931 (esgotado). Abismo - 1932 (esgotado).
0 Outro Livro de Job - 1936; 2.' ed., 1944; 3.' ed., 195 l; 4.' ed., 195 8; 5.' ed., 1986. Lamentao - 1943; 2.' ed., 1958; 3.' ed., 1970. Libertao - 1944; 2.'
ed., 1952; 3.' ed., 1960; 4.' ed., 1978. Odes - 1946; 2.' ed., 195 l; 3.' ed., revista, 1956; 4.' ed., 1977. Niffil Sibi - 1948; 2.' ed., 1956; 3.' ed., 1975. Cntico
do Ilomem - 1950; 2.' ed., 1950; 3.' ed., 1954; 4.' ed., 1974. Alguns Poemas Ibricos - 1952 (esgotado). Penas do Purgatrio - 1954; 2.' ed., aumentada, 1954; 3.'
ed., 1976. Orju Rebelde - 1958; 2.' ed., 1970; 3.' ed., 1992. Cmara Ardente - 1962; 2.' ed., 1983. Poemas Ibricos - 1965; 2.' ed., 1982. Traduo espanhola, 1984.
Traduo francesa,

1990. Antologia Potica - 1.' ed., 1981. 2.' ed., aumentada, 1985. 3.' ed., aumentada, 1992. 4.'

ed., aumentada, 1994. Traduo norueguesa, 1979; Traduo romena, 1990.

PROSA:

Po zimo - 1931 (esgotado). A Terceira Voz - 1934 (esgotado) A Criao do Mundo - Os dois Primeiros Dias - 1937; 2.' ed- revista, 1948; 3.' ed.,

1952; 4.' ed., refundida, 1969; 5.' ed., 1994.
* Terceiro Dia da Criao do Mundo - 1938; 2.' ed., refundida, 1948; 3.' ed., revista

1952; 4.' ed., refundida, 1970.
* Quarto Dia da Criao do Mundo - 1939 (Fora do mercado); 2.' ed., refundida,

1971. Bichos - 1940; 2.' ed., 1942: 3.' ed., 1944; 4.' ed., 1946. Traduo espanhola, 1948.

Traduo inglesa ilustrada, 1950. Traduo romena, 1950; 5.' ed., refundida, 1954; 6.' ed- remodelada, 196 l; 7.' ed., 1980; Traduo francesa, 1980; 11.' ed., 198
l; 12.' ed.,
1982; 13.' ed., 1983; 14.' ed., 1984. Traduo japonesa, 1984; 15.' ed., 1985. Traduo servo-croata, 1985; 16.' ed., 1986; Traduo alem, 1986. Contos da Montanha
- 1941 (fora do mercado); 2.' ed., refundida e aumentada - Rio

de Janeiro, 1955; 3.' ed., remodelada - Rio de Janeiro, 1962; 4.' ed., revista aumentada e com um prefcio. Coimbra, 1969; 5.' ed., 1976; 6.' ed., revista 1982;
7.' ed., 1987; 8.' ed., 1996; Traduo holandesa, 1993; Traduo espanhola, 1988. Traduo galega, 1993. Traduo inglesa, 1992; 8.* ed., 1996.
0 Senhor Ventura - 1943; 2.' ed., refundida, 1985; Traduo francesa, 1992; Traduo

chinesa, 1989; Traduo alem, 199 1. Um Reino Maravilhoso (Trs-os-Montes) - Conferncia, 1941 (esgotado). Rua - 1942; 2.' ed., 195 l; 3.' ed., refundida, 1956;
4.' ed., refundida e aumentada, 1967;

Traduo francesa 1987; trad. espanhola, 1994.
0 porto - Conferncia, 1944 (esgotado). fortugal - 1950; 2.' ed- refundida, 1957; 3.* ed., revista, 1967; 4.* ed., 1980; 5.' ed.,

1986: Traduo francesa, 1988: Traduo chinesa, 1990. Novos Contos da Montanha - 1944; 2.1 ed., 1945; 3.' ed., refundida e aumentada 1952,

4.' ed- refundida e aumentada, 1959; 5.' ed., acrescentada, revista e com um prefcio,
1967; 6.' ed., revista, 1975; 7.' ed., 1977; 8.' ed., 1978; 9.' ed., revista, 1980; 10.' ed.,
198 1; 11 .' ed., 1982; 12.' ed., 1984; 13.' ed., 1986; 15.' ed., 1991. Traduo chinesa,
1994. Traduo francesa, 1994. Vindima       Romance, 1945; 2.' ed., refundida, 1954; 3.* ed., revista. 1965. Traduo

alem      1965; 4.' ed. revista 1971; Traduo inglesa, 1988; 5.' ed., 1994. pedras Lavradas - 1951; 2.' ed., revista, 1958; 3.' ed., 1976. Traduo francesa, 1982;

Traduo alem, 1993; Traduo espanhola, 1987; 2.' ed., 1988. Trao de Unio - 1955, 2.' ed., revista. 1969. o Quinto Dia da Criao do Mundo - 1974. Fogo Preso
- 1976; 2.* ed., 1989. o Sexto Dia da Criao do Mundo - 198 1. A Criao do Mundo - Traduo francesa num s volume, 1985; Traduo espanhola

num s volume, 1986; Traduo catal num s volume, 1991. Edio portuguesa num s volume, 1991.

TEATRO:

Terra Firme, Mar - 1941 (esgotado) Terra Firme, 2.' ed., ref., 1947; 3.' ed., ref, 1960; 4.' ed., remodelada, 1977. o Paraso - 1949 (esgotado). Traduo francesa,
1949; 2.' ed., refundida, 1977. Sinjnia - Poema dramtico 1947. Coimbra Editora (fora do mercado). Mar - 2.' ed., refundida, 1958; 3.' ed- revista. 1970; 4.' ed.,
1983.

POESIA PROSA:

Dirio (1.' volume) - 1941; 2.' ed., 1942; 3.' ed.. 1946; 4.* ed., revista 1960; 5.' ed.,

revista, 1967. Diario (2.' volume) - 1943; 2.* ed., 1949; 3.' ed., revista, 1960; 4.* ed., 1977. Dirio (3.' volume) - 1946; 2,' ed., 1954; 3.' ed., 1973. Dirio
(4.' volume) - 1949; 2.' ed- 1953; 3.' ed., 1973. Dirio 0.- volume) - 1951; 2.* ed., 1955; 3.'ed., revista, 1974.

o

Dirio (6.

volume)

- 1953; 2.

Dirio (7.'

volume)

- 1956; 2.'

Dirio (8 '

volume)

- 1959: 2.'

Dirio (9.' volume)

- 1964; 2.'

ed., revista, 1960. 3.' ed., 1978. ed- revista, 1961; 3.' ed., revista, 1983. ed- 1960; 3.' ed- 1976. ed- 1977. Dirio (10.' volume) - 1968; 2.* ed., revista, 1992,
Dirio (11.' Volume) - 1973; 2.'ed., revista, 1991. Dirio (12.' volume) - 1977; 2.' ed,, 1977; 3.' ed., revista, 1986. Dirio (13.' volume) - 1983. Dirio Traduo
francesa (seleco num s volume) - 1982. Traduo sueca (seleco

num s volume) 1990. Traduo blgara (seleco num s volume) 1990. Traduo espanhola (seleco num s volume) 1988. Dirio (14. o volume) - 1987. Dirio (15.o
volume) - 1990. Dirio (I 6.o volume) - 1993; 2.' ed., 1995. Dirio (ed. integral) - 1995.

MIGUEL TORGA

CONTOS DA MONTANHA

8.- EDIAO

COIMBRA
9JUaNV V
PREFCIO A QUARTA EDI,40

Depois de muitos anos de desterro, regressam novamente ao torro natal os her M'*S deste atribulado livro. Numa poca em que tantos portugueses de carne e osso emigraram
por fome de po, exilaram-se eles, lusitanos de papel e tinta, por falta de liberdade. Enfarpelados num duro surrobeco de embarcadios, l se foram afoita- mente
em demanda do Brasil, o seio sempre acolhedor das nossas aflies. E ali viveram, generosamente acarinhados, assistidos de longe pela ternura correctiva do autor.
Voltam agora ao bero, rodos de saudades. E no  sem apreenso que os vejo pisar,
1.a menos toscos de aparncia, o amado cho da origem.  que muita gua correu sob a ponte desde que se ausentaram. Quatro

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dcadas de opresso desfiguraram completamente a paisagem do pas. A humana e a outra. Velhos desamparados, adultos desiludidos, jovens revoltados - num palco de
desolao. Almas amarfanhadas e terras em pousio. Que alento poder receber dum ambiente assim uma esperana de torna-viagem? Mas a ptria  um iman, mesmo quando
a universalidade do homem, como neste preciso momento, sai finalmente dos tacanhos limites do planeta. Poucos resistem  sua atraco ao verem-se longe dela, seja
qual for a rbita em que se

movam. At os seus filhos de fico. Por mais fortuna que tenham pelo mundo a

cabo,  com o ninho onde nasceram que sonham noite e dia.  que s nele se

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exprimem correctamente, esto certos nos

gestos, so realmente quem so. De maneira que no me atrevi a contrariar a vinda das minhas humildes criaturas, como a prudncia talvez aconselhasse. Pelo contrrio:
favoreci-a. Pode ser que o exemplo seja seguido,

e o xodo, que empobreceu a nao, comece a -fazer-se em sentido inverso, e as nossas

misrias e tristezas mudem de fisonomia. Portugal necessita urgentemente de ser repovoado.

S. Martinho de Anta, Natal de 1968

MIGUEL TORGA

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A MARIA LIONA

Galafura, vista da terra ch, parece o talefe do mundo. Um talefe encardido pelo tempo, mas de slido granito. Com o cu a servir-lhe de telhado e debruada sobre
o Varosa, que corre ao fundo, no abismo, quem quiser tomar-lhe o bafo tem de subir por um carreiro torto, a pique, cavado na

fraga, polido anos a fio pelos socos do Preguias, o moleiro, e pelas ferraduras do macho que leva pela arreata. Duas horas de penitncia.

L,  uma rua comprida, de casas com craveiros  janela, duas quelhas menos alegres, o largo, o cruzeiro, a igreja e uma fonte a jorrar gua muito fria. Montanha.
0 bero digno da Maria Liona.

Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emoo contida, como quando se ouve tocar a Senhor fora. E nem ler sabia! Bens - os seus dons naturais.
Mais nada. Nasceu

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pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que, por parentesco ou mais chegada convivncia, lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a

grandeza da herana estava apenas no ntimo sentido desses panos. Na recatada alvura que traziam da arca e na regularidade dos fios do linho de que eram feitos,
vinha a riqueza duma existncia que ia ser a legenda de Galafura.

Quando Deus a levou, num Maro que se

esforava por dar remate prazenteiro a trs meses

de invernia sem paralelo na lembrana dos velhos, Galafura no quis acreditar. Embora a visse estendida no caixo, lvida e serena, aspergia sobre o cadver a gua
benta do costume, sem

que o seu rude entendimento concebesse o fim daquela vida. 0 prprio Prior, to acostumado  transitria durao terrena, ao ser chamado  pressa para lhe dar a
extrema-uno, ungiu-a como se ela fosse me dele. Tremia. At o latim lhe saa da boca aos tropees, parecendo que punha mais f no arquejar do peito da moribunda
do que na epstola de S. Tiago. Apenas o Dr. Gil, o mdico, a tomar-lhe o pulso e a

senti-lo a fugir, no teve qualquer estremecimento. Receitou secamente leo canforado e saiu. Mas o Dr. Gil pertencia a outros mundos.

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Mdico municipal em Carrazedo, vinha a quem o

chamava, dando a santos e a ladres a mesma tintura de jalapa e a mesma digitalina. Por isso, a insensibilidade que mostrou no teve signficao para ningum. A
rotina do oficio empedernira-lhe os sentimentos. 0 ele declarar calmamente, j no estribo do cavalo, que no havia nada a fazer, foi como se um vedor afirmasse que
a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna, por ser um olho marinho. E assim que a moribunda exalou o ltimo suspiro,
e do quarto a

Joana R deu a notcia, lavada em lgrimas, c de fora respondeu-lhe um soluo prolongado, que, em vez de embaciar nos espritos a imagem da Maria Liona, a clarificava.
E o enterro, no outro dia pela manh, talvez por causa do ar tpido da primavera que comeava e da singeleza das flores campestres que bordavam as relheiras do caminho,
pareceu a todos uma romagem voluntria e simples ao cemitrio, onde deixavam como uma Salve-rainha pela alma dos defuntos o corpo da Maria Liona. No. No podia
morrer no

corao de ningum uma realidade que em setenta anos fora o sol de Galafura.

Em pequenina, logo o seu riso escarolado encheu a aldeia de ls a ls. Velhos e novos

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acostumaram-se desde o primeiro instante quele rosto mido e rosado3 onde brilhavam dois olhos negros e perscrutadores. Depois, durante a meninice e a mocidade,
foi ela ainda o ai Jesus da terra. Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipaes, dos remendos mal pregados, das ndoas de mosto nas trasfegas.
Airosa e desenxovalhada, dava o mesmo gosto v-Ia a guardar cabras, a comungar ou a segar erva nos lameiros. E quando, j mulher, se

falava pelas cavas nas moas casadoiras do lugar, nenhum rapaz lhe pronunciava o nome sem

uma secreta emoo. Alm de ser a cachopa mais bonita, dada e alegre da terra, era tambm a mais assente e respeitada. Quer nas mondas, quer nas esfolhadas, o seu
riso significava tudo menos licena. E ningum lhe punha um dedo. Olhavam-na numa espcie de enlevo, como a um

fruto dum ramo cimeiro que a natureza quisesse amadurecer plenamente, sem pedrado, num stio alto onde s um desejo arrojado e limpo o fosse colher. Embora igual
s outras, pela pobreza e

pela condio, havia  sua volta um halo de pureza que simbolizava a prpria pureza de Galafura. Na pessoa da Maria Liona convergiam todas as

virtudes da povoao. Quem  que merecia a

ddiva de uma riqueza assim?

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Foi preciso que o Loureno Ruivo acabasse a militana e voltasse a Galafura com a mo mais apurada para apertar a dela sob a estola. 0 padre Jaime, o prior de ento,
abenoou-os como se fossem filhos, E Galafura, depois do arroz doce, pos-se confiada  espera da felicidade futura do casal. Esquecidos das manhas e artimanhas da
vida, todos sonhavam para os dois a ventura que no tinham tido. S o destino, fiel s misrias do mundo, sabia que fora reservado  Maria Lona um papel mais significativo:
ser ali a expresso humana dum sofrimento levado aos confins do possvel. Torn-la imune  desgraa seria desenraiz-la do torro nativo.

0 polimento do Ruivo, em que a aldeia pusera tantas esperanas, delira-lhe apenas os calos gerados pelo rabo do enxado. No fizera dele o companheiro que a rapariga
merecia. Engravatado aos domingos e de costas direitas o resto da semana, ao fim dos nove meses sacramentais, quando o Pedro nasceu, gordo, calado, rosado, em vez
de tirar daquela presena nimo para se atirar s ]eiras, acovardou-se de uma boca a mais na casa, empenhou-se e partiu para o Brasil.

A Maria Liona, essa, ficou. Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do

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outro lado do mar, tambm ela teria de sofrer a

mesma separao expiatria, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperana continuamente renovada e desiludida na loja da Purificao, que distribua o
correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas dum baralho.

- 0 teu homem tem-te escrito, Maria? - perguntava o prior de Pscoa a Pscoa.

- Ele no, senhor. H quinze anos...

No acrescentava a mnima queixa  resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos

lhe mirrassem no corpo, numa resignao digna e

discreta. Com o filho sempre agarrado s saias, como um permanente sinal de que j pagara  vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas
fofas e gordas. Depositria do pobre patrimnio do casal, queria conserv-lo intacto e granjeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razo para se manter firme
e corajosa ao leme do pequeno barco.

-Nada, Maria?-O prior j nem se atrevia a alargar a pergunta.

- Nada. Respondia sem revolta ou renncia na voz. Objectivava a situao, lealmente. 0 que sentia por dentro, era o segredo da sua serenidade.

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At que um dia o Ruivo deu finalmente notcias. Regressava. E Galafura    ` solidria com a grandeza humana da Maria Liona, disps-se a esquecer todas as ofensas
e a receber festivamente a ovelha desgarrada.

Quem representava esse perdo colectivo e essa sade da alma da terra era o Pedro, o filho, que ao lado da me, na estao de Gouvinhas, deixava a imaginao correr
desenfreada pela linha fora at se perder nos ltimos degraus da escada fugidia feita de ao e sulipas.

Infelizmente, o comboio que surgiu ao longe, avanou e passou junto dele a travar o passo, trazia dentro uma desiluso. 0 pai pareceu-lhe uma sombra esbatida da
imagem recortada que sonhara.

- Seu moo est mesmo um homem 1 A  voz rouca e dolente foi apenas a confirmao duma runa que se lhe estampava no rosto esqueltico, cor de palha. 0 Ruivo que
ficara em Galafura, na cauo dum retrato em corpo inteiro, era a sade personificada. E o Ruivo que, escanchado sobre a cavalgadura que o conduzia, resprava- 
sobreposse, s abstractamente se identificava com o original. Talvez para justificar essa desfigurao, culpado diante da mulher, do filho e dos montes eternamente

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arejados e limpos da Mantelinha, o renegado confessou tudo. Vinha doente e desenganado. Males ruins... J lhe custava engolir. E aquela abafao a apertar, a ,apertar...
Mas nada de aflies. Voltava s para morrer.

No hospital da Vila os doutores ainda lhe fizeram um furo no pescoo para o aliviar do garrote. Mais uns contos de ris, mas pacincia. Galafura, na pessoa da Maria
Liona, se no

podia apertar nos braos generosos um corpo

comido dos vcios do mundo, queria que ele respirasse ao menos livremente o seu ar puro.

Um ms depois estava estendido sobre a cama

onde noivara, imvel, muito amarelo, muito seco, j com a alma a dar contas a Deus. E no dia

seguinte, pela manh, a boca do cemitrio de Galafura, tragava-lhe os ossos descarnados.

Do rescaldo dessa mortalha singular, saiu mais viva ainda a figura de Maria Liona. Nem o

chorou fora dos limites do seu amor atraioado, nem se carregou dum luto para alm da melanclica negrura que lhe apertava o corao. Manteve-se na justa expresso
do sentir de Galafura, enojada e apiedada ao mesmo tempo. Digna e

discreta, enterrou-o e comeou a pagar os juros da operao. A trovoada no perturbou nem ao

de leve o ritmo dos seus passos.

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0 filho, o Pedro,  que no resistiu ao desencanto. Envergonhado dum pai que lhe passara apenas pelos olhos como um fantasma de podrido,

e sem poder abarcar a grandeza daquela me que fazia do absurdo o po da boca, abalou piara Lisboa, sem Galafura saber a qu. E nova via sacra comeou na loja do
correio.

-No tens nada, Maria. Velha, branca, igual, a Liona voltava pelo mesmo caminho e sentava-se ao lume a fiar, pondo na regularidade do fio a estremada regularidade
da sua vida. E Galafura, tanto ao passar para os lameiros como na volta, saudava respeitosamente nela uma permanncia que resgatava a

traio do marido e a fraqueza do filho. Como  mimosa familiar do adro, ou  fonte incansvel do largo, assim a  viam, segura e repousante no seu posto, e capaz
de todos os herosmos dum ser humano. 0 tempo dera-lhes a chave daquela existncia, destinada, afinal, mais s provaes do sofrimento do que   ao gosto das alegrias.
S ela os podia esclarecer e ajudar no desespero de certas horas e situaes.

Movedio como a insensatez da sua idade, o filho fizera-se marinheiro. E Galafura, humosa, enraizada no dorso da serra de S. Gunhedo, olhava esse rebento, mergulhado
em gua, como

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um proscrito. Antes o degredo do pai no Brasil,

ao menos aproado a um cho que fazia parte da cosmogonia de Galafura. Diluda na imensido do mar, a imagem do rapaz perdera toda a nitidez. E sumir-se-ia irremediavelmente
na conscincia da povoao, sem a ajuda da Maria Liona. Quando inesperadamente chegou um telegrama da capitania de Leixes e ela partiu,  que viram todos como
fora capaz, szinha, de manter indelvel a realidade do ausente. Se se metia a caminho, se enfrentava de rosto calmo a primeira viagem distante e o pavor da cidade,
l tinha as suas razes, que eram necessariamente razes de Galafura.

Tal e qual. No dia seguinte a aldeia viu com espanto e comoo que trouxera nos braos de sessenta anos o filho morto. Deram-lho no hospital, a exalar o ltimo suspiro.
Meteu-se ento no comboio com ele ao colo, j a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licena a todos, que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo.
E assim conseguiu sent-lo e

sentar-se a seu lado.

Galafura quase que no compreendia como pudera com ele, embora fosse meo e magro.
0 que  certo  que pudera, e sem lgrimas nos olhos lhe falava ternamente mal o revisor aparecia no compartimento.

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-Di-te, filho? Di-te muito? Pois di... Di...

Encostava-o ao ombro, enrolava-lhe a manta nas pernas hirtas e mostrava os bilhetes,

Em Gouvinhas apeou-se.  porta da estao, o guarda arregalou muito os olhos, mas deixou passar. E da a pouco, no macho do Preguias, o Pedro subia a serra para
dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regao eterno de sua me.

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UM ROUBO

Foi numa noite medonha, cheia de gua e

gelada, que o Faustino assaltou a Senhora da Sade. H tempos j que a ideia desse roubo o obcecava, mas a mulher e o demnio duma hesitao imbecil tinham-no afastado
disso. Ainda bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que ele pudesse finalmente realizar o sonho. Punha-se a deitar contas  vida, s casas da
povoao onde lhe fosse possvel arranjar meia dzia de vintns para matar a fome naquela grande invernia, e nada, a no ser a Senhora da Sade. Mas  que nada!
Abaas era uma terra pobre. Dinheiro, do contado, s o Albertino. Infelizmente, ao Albertino, tudo menos mexer-lhe num gravelho. Forte e valente como um toiro, ainda
por cima dormia de caadeira encostada ao travesseiro.  claro que havia o recurso de alargar os olhos pelas aldeias vizinhas. Somente: alm de o temporal tolher
os passos ao mais honrado,

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como o ano ia de fome, todos viviam de olho aberto e de porta trancada. De resto, no se

sentia j com foras para repetir a faanha de Freixoedo. Cinco costelas partidas so muitas costelas. Sem contar -e aqui  que a porca torcia o rabo - com o aviso
solene do juiz:
- Dou-lhe apenas quatro meses, atendendo a

que j foi bem convidado e que  esta a primeira vez que aqui me aparece. Mas no volte! De contrrio, perca o amor  liberdade.

Ora, uma coisa  passar uns dias na cadeia de Alij e outra ver-se um homem metido numa penitenciria a vida inteira.

Apertada por tal arrocho, a imaginao do Faustino sucumbia. At que, ressuscitada por aquele buraco no estmago que nenhum aguaceiro enchia, comeou de novo a namorar
a

Senhora da Sade, rica e desamparada na serra.

Nem juiz, nem testemunhas, nem o delegado a

berrar... Nada. Decididamente, o grande tiro era ali!

Naquela noite, depois dum caldo que nem a

ces, e de todas as demais hipteses arredadas, a miragem voltou, mas j sem a indeciso das tentaes anteriores. No havia que ver. 0 stio no podia ser melhor;
 porta, bastava-lhe um

empurro; o resto, qu? Acender uma vela das

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do altar, forar a fechadura da caixa das esmolas, encher o bolso, e ala morena.

A mulher, sem migalha de po na arca e sem

pinga de azeite na almotolia, sabia bem que o

remdio habitual daquelas penrias era ir busc-lo onde o houvesse. Mas quando o homem, a meia voz, comeou a repisar a ideia, desaprovou mais

uma vez o projecto sacrlego. A outro lado qualquer, estava de acordo.  Senhora da Sade, no.

0 Faustino nem a ouviu, ocupado como

estava no labor de semear a boa semente na terra podre dos ltimos escrpulos. Debruado sobre as pernas, com os dedos dos ps a espreitar das meias rotas, continuou
a aquecer-se aos ties apagados, a chupar a pirisca do cigarro e a enume-

rar uma por uma as mil vantagens do negcio.

Coisa realmente fcil, sem nenhum perigo, e que trazia a soluo do aperto em que estavam. Por ser capela?! Valha-nos Deus! 0 essencial  que na caixa houvesse algum...
Ao menos cem

mil reisinhos! H?! Pois no teria sequer cem

mil ris ?!

Interpelava a companheira, que no colaborava j de nenhum modo naquela luta. Embrulhada no xaile pudo, aninhara-se quase em cima do borralho e fechara os olhos.
0 Faustino teve de responder s suas prprias perguntas.

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Cem mil reis, e a contar muito por baixo. At era ofender a Santa, sup-la com menos capital na arca.

 medida que ia pondo na balana as justificaes do seu desejo, o Faustino via oscilar o fiel da deciso e pender para o lado que lhe convinha o prato reluzente
da fortuna. No havia que ver. As coisas eram o que eram. A evidncia metia-se pelos olhos dentro.

Por volta da meia noite as derradeiras amarras da conscincia acabaram de ceder. Raios partissem as horas que gastara a pensar na morte da bezerra! H certas alturas
em que a gente, em vez de miolos, parece que tem aranhas no toutio!

Ergueu-se. Do Faustino titubeante, quase a

deixar fugir a sorte que to generosamente lhe sorria, j no restavam sinais. Agora estava de p um homem magro, baixo, de barba restolhuda e olhos de azougue,
vivo, flexvel, deci~ dido como uma doninha.

A mulher nem dormia nem velava. Conti~ nuava engrunhada no seu canto, distante, como se o frio a tivesse entorpecido ou uma grande dor silenciosa e funda a roesse
por dentro.

Ele tambm lhe no falou. Ladro agora duplamente culpado diante da desaprovao dela,

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foi  loja buscar os precisos e desapareceu na

escurido do quinteiro, sombra muda a esgueirar-se na sombra.

0 temporal bramia pela aldeia fora. Ouvia-se a nortada a pregar nos braos dos castanheiros

e as btegas a cair nas estrumeiras encharcadas. Um tar de repassar fragas.

Faustino, vencidos cautelosamente os cem

metros da quelha em que morava, meteu-se  serra. Apesar de o vento galego o empurrar para trs, para o frio enxuto da casa, caminhava depressa. Uma vez que encontrara
foras para tomar a nica resoluo acertada, era preciso no demorar.

Infelizmente, a Senhora da Sade no ficava logo ali. Quase no termo de Valongueiras, distava de Abaas uma boa meia hora. Ainda por cima, caminhos maus. Ou lajes
com relheiras que lembravam rugas em coiro de atanado, ou

ento saibro ensopado e atoladio. Trilhos exco-

mungados! Mas desembelinhava as canelas o melhor que podia, e meia hora, que afinal queria dizer meia lgua, passa depressa.  questo de um homem ir deitando contas
 vida enquanto as pernas passeiam.

Cem mil ris, na pior das hipteses, estavam-lhe no papo. S muito azar. Mas no.

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A Senhora da Sade governava-se... Nem havia outra to agenciadeira nas redondezas...

Na carvalhada da Arc os pensamentos mudaram-lhe de rumo. A tosca memria erguida pela morte do Joaquim Teodoro, assassinado naquele stio, chamou-o a uma realidade
mais dura. 0 Joaquim Teodoro, ao cabo, era ladro .tambm. No de caminhos nem de igrejas,  certo, mas de roleta, que d mais e sem nenhum trabalho. Basta lume
no olho e dedo. justamente o forte do Joaquim Teodoro... Que habilidade! Isso ento na vermelhinha no havia segundo!
0 mais pintado entregava-lhe ali o seu e o de quem calhasse. Artes do diabo! Mas o Videira, quando no dia da festa lhe passou para as mos

o ltimo tosto, jurou-lhe que no ano que vinha no vigarzava ele mais ningum. Dito e feito. E ali estava agora a alma do Joaquim Teodoro pintada a branco no granito,
entre lnguas de fogo, de mos erguidas a pedir um padre-nosso!

E se ele, Faustino, tirasse o chapu e atendesse a implorao ?

Um padre-nosso antes de roubar a Senhora da Sade, tinha a sua graa!

Apesar de travado por estes pensamentos desconsolados, caminhava depressa. E,  medida

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que a carvalhada foi ficando para trs, a imagem do Joaquim Teodoro comeou a desvanecer-se. Insensivelmente, todo ele ia aderindo  realidade erma e negra que o
cercava. Tambm onde o raio da Santa viera fazer o pouso! Era mesmo desafiar um homem. 0 pior  se...

Mas no. A sorte dele havia de ser to caipora, que encontrasse a caixa sem um vintm?

A esta ntima interrogao, os olhos responderam-lhe bruscamente que chegara. A dois palmos do nariz viam-se as paredes da ermida a reluzir.

Embora gatuno de profisso, pois que no se podia chamar cesteiro a quem s l de tempos a tempos fazia um cesto por desfastio, Faustino, mal deu de chofre com a
capela, teve um baque no corao. E parou. Nunca assaltara nenhum lugar sagrado. Sempre era roubar a Senhora da Sade!

Mas a hesitao durou um minuto apenas. Molhado da cabea aos ps, o prprio organismo  que o impeliu para a frente, para dentro de uma casa com telhado. No havia
tempo a perder de maneira nenhuma. Nem o corpo, nem o esprito lhe podiam consentir uma fraqueza em

semelhante ocasio. Para diante  que era o caminho!

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Num mpeto, chegou-se  porta e meteu-lhe o ombro. Pois claro, como tinha previsto... Escancaradinha! Com a ,.espirao suspensa e

todo num formigueiro, entrou de rompante no

poo de escurido.

Dentro., o primeiro impulso do seu instinto foi fechar a porta de novo. Mas a razo, chamada a contas, discordou. Homem, pelo sim, pelo no, deixar o trnsito desimpedido!

Riscou um fsforo, de cabelos em p. At se desconhecia! Ningum as cala que as no borre, bem se diz l!...

Na luz incerta que se fez, ps-se a olhar febrilmente para todos os lados e a ouvir ao mesmo tempo, de orelha fita, o silncio pesado da capela. Felizmente, nada.
Imveis e espantados, os santos pareciam surpreendidos, mas

no faziam um gesto para defender a moradia. Realmente, todos de pau! Que sossego! Chegava a parecer mentira que uma casa de Deus tivesse de noite um ar to desgraado.
Nos palheiros, ao menos, havia ratos!

Deu alguns passos. Como o fsforo estava no fim e j lhe aquecia os dedos, riscou outro. Menos inseguro, subiu as escadas do altar de S, Jos, logo  entrada. E,
quase serenamente, acendeu a vela dum castial.

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A igreja clareou quanto a luz pde. E, mais iluminada, tomou-se ainda mais simples, mais natural. As imagens j nem sequer o ar atnito de h pouco conservavam;
e o resto, francamente, sem nenhum ar divino. Toalhas, bancos, jarras...
0 trivial. Tanta mortificao intil!

Voltou-se. A caixa das esmolas estava ao fundo, enterrada na parede que ligava o templo ao cabido. Era do lado de fora, pela fresta cavada na cantaria, que os devotos
deixavam cair a boa massinha. Pinga que pinga...      Uma mina!

Com passos de l, chegou-se. Caramba, seria que no estivesse a abarrotar?!      Ps a luz no cho e meteu mos  obra. Se calhar tinha que escaqueirar a tampa 
martelada... Mas no  que a fechadura parecia de papelo e cedia ao cinzel sem resistncia nenhuma?! Tudo s mil maravilhas...     Um ms de tripa forra ningum
lho tirava.

Desgraadamente, a caixa estava limpa. Ou fora roubada, ou a esvaziara o padre Bento na

vspera ou ento j no havia f neste amaldioado mundo. Ah! mas ele, Faustino, no se deixava enganar assim. No. Tivesse a Senhora da Sade pacincia. L pouco
dele, isso vrgula! Vinha com boas intenes. Obrigavam-no, pronto: ia o que houvesse e passava tudo a patacos.

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Pegou de repelo no castial e avanou indignado para o altar mor. No acreditava que no sacrrio a misria fosse tambm assim.

Era. Os dois SS entrelaados na portinhola queriam dizer apenas um buraco escuro, vazio, onde os seus dedos resolutos tactearam em vo.

Ladres! Filhos duma grande...       Nem ao

menos o clix! 0 que vale  que havia ainda a

sacristia para revistar. E que no estivessem l os apetrechos devidos! Ia a casa do abade, que lhe havia de pr ali o que pertencia  santa...
0 clix, a cruz, o turbulo, tudo. E a bagalhoa, claro. Pouca vergonha!

Investiu pela sacristia dentro. Queria ver

quem levava a melhor.

Mas qual o qu! Estava mesmo roubado. Flores desbotadas de papel, tocos de crios, um

crucifixo partido... Que cambada!

Desanimado, pegou na luz. Larpios!  medida que o desespero tomava conta dele, perdia o resto duma precauo que a prudncia lhe aconselhara. Falava alto, rogava
pragas, caminhava pela capela abaixo com a indignada razo de quem andava na sua prpria casa a verificar os danos dum assalto de bandidos! Canalhas!

At que chegou ao fim da nave. Olhou ainda os altares num relance. Os santos l continua-

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vam parados como h bocado e a olh-lo agora a modos de caoada. Sim senhor, uma linda figura de pedao de asno que fizera diante deles!

Ps o castial no cho, soprou  vela, puxou a porta e saiu.

0 temporal redobrara de fria. A atravessar o adro, com a desiluso a percorrer-lhe as veias,  que via bem como a escurido era cerrada e como a chuva lhe trespassava
o corpo. Porca de vida! Um homem a fazer por ela, a aguentar no lombo uma noitada daquelas, para ao cabo dar com o nariz no sedeiro!

Na carvalhada da Arc j os ombros, de entanguidos, se lhe queriam meter pelo pescoo dentro. Filhadinho! A roupa ia-lhe to colada ao corpo que parecia que era
a pele. Cadela de sorte!

Na curva, l estava outra vez a alma do Joaquim Teodoro a pedir o padre-nosso. Pata que lambesse o Joaquim Teodoro! Padre-nossos, padre-nossos, ia-se a ver e a caixa
da Senhora da Sade sem um vintm! Ah! mas o abade punha-lhe ali a massa e o resto com lngua de palmo. Oh, se punha!

s quatro da madrugada entrou em casa. Como um pitinho! A mulher l estava ainda no mesmo stio, calada, triste, longe da vida.

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. No lhe falou. A escorrer gua, gelado, foi direito  cama, despiu-se e meteu-se entre as mantas a bater os dentes.

Pela manh ardia em febre. E da a seis dias, depois de um custico lhe abrir no peito urna bica de matria e de o barbeiro de Parada o ter desenganado, foi preciso
chamar o confessor, a ver se

ao menos se lhe podia salvar a alma.

Veio ento o padre Bento, manso, vermelho, tranquilizador. Mas o Faustino delirava. E mal o santo homem, de sobrepeliz, lhe entrou pelo quarto dentro, arregalou
os olhos, inteiriou-se no catre, apontou-o  mulher e aos circunstantes, e com a voz toldada da bronco-pneumonia, rouquejou:

- Ladro! Prendam-no, que  ladro!

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AMOR

Nasceu aquela flor em Covelinhas, dum cas-

tanheiro velho, o Loureno Abel, e duma urze mirrada, a Joana Benta. Nasceu e cresceu to linda, to airosa, que o povo em peso punha os

olhos nela. S tinha um defeito...

- Verduras da mocidade! - pretextava a Cludia, quando o homem, ao lume, censurava

os namoros da rapariga.

- Ultrapassa as marcas! D trela a quantos h na freguesia...

- Ainda ho-de ser mais as vozes do que

as nozes.

-, ! No dia das inspeces l se viu... A Cludia calou-se. Na comprida crnica da montanha no havia pgina mais negra do que essa a que o homem fazia aluso.
Acabadinhos de sair das garras da junta, onde nus em plo pareciam cordeiros tosquiados, trs de Paos, dois

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de Fermentes, um de Vilela e outro de S. Martinho armaram tamanha guerra na Saina, que s faltou tocar os sinos a rebate. 0 de Vilela, aqui-del-rei que a rapariga
era dele; o de S. Martinho que o varava logo ali se continuasse com as gabarolices; o mais possante dos de Paos que no consentia trigo do seu forno na boca de
ces... Um inferno. Segue-se que da a nada ia tal polvorosa pelos montes, que Deus nos acudisse. No morreu ningum, felizmente, mas chegou para afligir.

A Ldia  que no queria saber de desgraas. Muito bem feita, muito corada, com aqueles dois olhos de veludo que ameigavam tojos, depois de cada sarrafusca a que
dava azo, passava pela rua

acima em direco s hortas como se nada fosse. E o povo inteiro rendia-se-lhe aos ps, num

sorriso de perdo, de complacncia e de carinho.

- Tu a quantos atendes? - perguntava-lhe em confidncia a Mariana, j com cinquenta e

dois e ainda de olhinho a reluzir.

- A nenhum. Ningum me quer, tia Mariana! E dava uma gargalhada das dela, muito clara, muito pura, pondo  mostra uns dentes que cegavam a gente.

- Raios te partam, rapariga! Trazes um regimento  corda, e a dizer que ningum te quer!

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-  conscincia!...

E toda ela se dava e se recusava num requebro enigmtico, com os seios a enfunarem-lhe a blusa de chita.

- Olha., fazes tu muito bem! Enquanto dura,  doura...

E a doura era naquele inverno gelado, noites a fio, o Pedro Verdeal comido de cimes a guardar o Lcio, e o Lcio, comido de cimes, a guardar o Verdeal.

-Que cegueira! Perdidinhos de todo! Um sincelo de meter medo e nenhum arreda p! Ao menos tem pena deles, cachopa. Manda pr uma

braseira debaixo do negrilho e outra no cruzeiro...

- Eles no tm frio. Quanto mais, deixe falar, tia Cludia! Se andam de noite, l andam  sua vida. C comigo no h nada. Querem coisa mais alta.

E continuava a receber cartas do Lcio, do Verdeal, do Vitorino, e at recados do Teodoro, um homem j vivo! A Violante do correio entregava-lhe essas letras de
amor s escondidas de toda gente, mas ia dizendo:

- Eu no sei como tu podes com tal cainada atrs de ti!...

A Ldia, porm, era aquele corao aberto a

quantos lhe batiam  porta. Como uma terra de

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semeadura em pousio, dizia a todas as sementes que deixassem apenas chegar a primavera... No havia maldade nem clculo nas promessas que fazia. Diante de cada solicitao
masculina, sentia-se como que chamada a dar contas da sua ntima natureza de mulher. E todos podiam pedir-lhas com igual autoridade, justamente porque no amara
ainda nenhum a valer. Limpo, o seu

corpo estava destinado a pertencer a um daqueles pobres obcecados, que andavam  sua volta como lobos  volta de uma ovelha. A um deles teria de se entregar, mais
dia, menos dia. Mas a qual?

- Tu  que sabes. Se fosse comigo, escolhia o mais jeitoso e mandava os outros  tabua. Sarilhos desses  que no!-repetia a Violante, apavorada com tanta carta
e tanto enredo. - V l!

- Deixe correr, que ainda bota, ti Violante. Uma carta custa apenas o selo e o papel.

- Parece-te! Pode custar muita lgrima. No estiques a corda demais...

Boas palavras, realmente. Pena  que no tivessem eco nos ouvidos da Ldia.   Por mais que quisesse, no conseguia decidir-se por nenhum. Os homens eram como os
ramos         de rebuados na mesa da doceira: pareciam-lhe     todos iguais.

-No so, no. Repara bem, que vers... -respondia-lhe a Cludia, cheia de pacincia.

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Reparava e via o mesmo desejo a arder nos Olhos de cada um. As palavras, os gestos, os amuos significavam em todos a mesma coisa. P-ra a virgindade que lhe pediam,
quer o dissessem, quer no. E continuava, conciliante, a pro. Ineter-lha e a negar-lha.

- Qualquer dia estoira para a tamanho sarrabulho, que vai ser uma vergonha... - ia insistindo o Leopoldino, agoirento.

- Olha no estoires tu do miolo! - repontava a mulher, a fazer de valente.

-Deu com o pai j comido da terra, e con, a lambaas da me, que  uma pobre de Cristo. Posse minha filha e eu te diria. Era com uma soga por aquele lombo...

- A me que h-de fazer? Proibi-Ia de se divertir ?!

A Cludia  estava farta de saber que o homeril tinha carradas de razo. Quantas e quantas vezes falara j com a Joana Benta sobre a filha. Valia de bem! A coitada
ouvia, concordava, gemia,

apagava-se  rasteira na escurido da cozinha. noite  que l se atrevia a dizer uma palavra  rapariga.

- Tu no ters juzo, mulher! Coisa assim!
- No se aflija, que no me d o lampo. Palavras leva-as o vento...

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Mas com palavras tinha ela posto a cabea do Verdeal e do Lcio a andar  roda. A mangar, a mangar, jurava a cada um que no queria mais ningum e que os outros
lhe rondavam a casa por palermice. Que no era culpada de quantos homens havia no concelho lhe andarem a cheirar o rasto...

Na vspera do S. Miguel, a Olvia, que era sua amiga do corao, ao vir da missa ps-lhe os

pontos nos ii.

-Tu tem l mo na manta, que isto no acaba bem. D o sim-ou-sopas a um e emponta o resto. Muitos burros  nora no  negcio; escoicinham-se uns aos outros... 0
Verdeal anda sobre o Lcio como um co. Se o agarra a jeito, esfandega-o.

- Mas porqu -Ainda perguntas?
- Oh! E aconteceu o que tinha de acontecer. Nessa mesma noite, depois da ceia, o Verdeal, ao voltar a esquina da eira, viu um vulto  porta do quinteiro da moa.
Disfarou-se na sombra e chegou-se perto. Era o Lcio a falar com ela. Avanou at junto deles. No calor da conversa, nem

o viram.

- Ento, muito boas noites... - cumprimentou., j de mo na pistola.

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- Boas noites - responderam ambos, ela com a mesma cara, e o Lcio cego de raiva.

- Pode-se saber quando  a boda?
- Pode... Mediram-se os dois de cima abaixo. - capaz de ser, no dia de juzo...
- Conforme... - que a bocada s vezes parece que est quase na boca e no est...

Alheia, numa volpia de irresponsabilidade, a Ldia assistia quela disputa de que era a causa, divertida como uma criana. Quase que nem ouviu o simultneo deflagrar
das armas.

- Canalha! Seguiram-se mais dois estalidos secos.
- Cabro! Os insultos como que eram apenas um comentrio desdenhoso  margem dos tiros rpidos e sucessivos.

- Excomungada! A inesperada maldio entrou na alma da Ldia como um punhaL De quem vinha? Da boca do Lcio, ou da boca do Verdeal ?

Mas no pde sab-lo. Ambos jaziam quase a seus ps, cada um no ltimo arranco. E quando a me, espavorida, em saiote, abriu a porta, veio encontr-la ainda alheada
junto dos dois mortos, a tentar compreender a violncia daquela queixa.

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HOMENS DE VILARINHO

Foi um grande acontecimento em Vilarinho, quando na Senhora da Agonia,  missa, o padre Joo leu os nomes dos mordomos da prxima festa.  que,  cabea do rol,
vinha o Firmo, e todos esperavam tudo menos isso.

- 0 Firmo?! -no se conteve, no silncio da igreja, o Antnio Puga.

- Psiu!... - sibilou, dos lados da pia benta, o sacristo, que andava s esmolas.

E o caso s  sada foi comentado como

merecia.

-0 Firmo?! Mas ento o Firmo, daqui a um ano... -e o Puga nem era capaz de levar o raciocnio ao fim.

- Fica. Desta vez fica... - garantiu a Margarida, que bebia do fino. - 0 padre Joo tantas lhe disse...

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A assistncia ouvia maravilhada. 0 Firmo de pedra e cal em Vilarinho! 0 mundo sempre d muita volta!

A notcia tinha realmente que se lhe dissesse. H muito anos j que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante> da artilharia, e embarcara, nunca
mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a prpria mulher. Quando lhe perguntavam pelo homem, o que fazia, se voltava, se gozava sade, respondia, j
resignada:

-0 meu Firmo?! Eu sei l do meu Firmo 1 No Brasil, na Amrica, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar

de terra, sempre a mudar de emprego, e s duas

por trs a oferecer os prstimos para Portugal.

- Oli! oh! -So meia dzia de dias. Daqui a nada.

estou c.  s o tempo de o navio chegar, esperar

que eu faa um filho  patroa, e levantar ferro...

Dito e feito. Da a pouco regressava com

a mesma cara. De tal maneira, que j todos se

riam. Dera em droga, no havia que ver. S mesmo o padre Joo, cabeudo,  que podia ter

ainda f naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermo deixado a meio da ltima vez. 0 padre

era o proco de Vilarinho. E sempre que Firmo

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vinha  terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, l estava ele  entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachao de cavador.

- Ds licena, Firmo?
- Faa favor de entrar, senhor padre Joo. -Ento tu no ters mais juzo, homem de Deus @ 1 Tu no vers que tens aqui um rebanho de filhos?!

Firmo baixava a cabea diante daquela voz

amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum ltego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana comeava a pedir azeitonas s
vizinhas, ia dizendo: _  s tu com desejos de azeitonas e eu com

desejos de mundo...

-Ali! Firmo, que sorte a minha! Valia de bem o gemido da infelizl Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordo
se preciso fosse, recorria em ltimo caso ao prprio padre Joo, mas abalava.

-Grandes terras, ti Guilhermino 1
- No h dvida, Firmo... No h dvida      ... Os lucros que tens tirado delas  que so fracos ...
- respondia melancolicamente o velho, quando

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o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califrnia.

-No tem calhado... Que ele tambm para que  que o dinheiro presta ?!

- Homessa! - o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba...

- E a mulher e os filhos?
- A mulher e os filhos c vo vivendo... E Vilarinho desanimava.
- Coisa assim, como ele se ps! E ainda se

fosse de gente doutra condio, v l com mil demnios! Agora quem lhe conheceu o pai, como

eu, um homem srio, zelador do que lhe pertencia, amigo da famlia, sempre agarrado  enxada... Que ele no  mau. Mas fazer-se um tragamundos daquela maneira! -
gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a cngrua. - Acredita que tenho uma paixo, que nem fazes ideia!

0 padre era a prpria seiva de Vlarinho. To agarrado  terra que costumava dizer aos colegas:

- Eu, fora c da minha freguesia, nem latim sei.

Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.

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-- Ora, ora, padre Joo! Esquece-se do latim,

es mas lembra-se do portugu       Que o diga quem pode...

Aludiam risonhamente  conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado  pedra. 0 prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois
de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, ps-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave      de conscincia e de disciplina.
Que sabia que   Sua Reverncia vivia amancebado e tinha prole.   Que tomara conta da diocese h pouco tempo      e que no desejava iniciar a pastoreao com actos
de violncia. Mas que, por outro lado,    no podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Revrencia o
concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.

0 ru no esteve com meias medidas. -- Olhe'  senhor Bispo, c por cima so estes usos. Padre sim, padre no, faz o mesmo. Tenha a certeza. 0 que so  mais finos
do que eu. As fmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados, Ora eu c sou po po, queijo queijo. No nego. Para qu? A mulher  minha, nunca foi doutro,
gosto dela e no a largo; os filhos

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tenho j cinco, quero cri-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faa o senhor Bispo o que entender.

A resposta ficou clebre. E os colegas, sempre que vinha a propsito, davam-lhe o belisco.

Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou l o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irms
que governava.

Destas, s uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. 0 diabo sara ave de arribao. E para quem como ele mergulhava as razes no cho de Vilarinho, uma realidade
assim era um sofrimento.

- Homem, mas tu, afinal, quando te resolves

a ser um pai de famlia e a ter vergonha na

cara?-acabou por perguntar ao Firmo, j sem

mais pacincia.

-H-de ser um dia. Prometo-lhe que h-de ser um dia!

E quando pela sexta vez o padre o acordou do  sono com a mulher, na vspera da Senhora da  Agonia, o Firmo sossegou-lhe o corao.

- desta feita. Na Quaresma conte com

mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha...

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Padre Joo sentiu que um grande peso lhe saa dos ombros. At que enfim!

- Ds-me a tua palavra?
- Estou-lhe a falar a srio, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. j iam sendo horas...

A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo no, no dia seguinte,  missa, o padre resolveu amarrar o valdevinos  argola, pondo-o, com grande
espanto de Vilarinho, no principio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.

-Ser que ele desta vez fica mesmo? -

insistia o Puga na venda do Trauliteiro.

-Parece que sim. 0 padre Joo l o convenceu...

- Custa-me a acreditar.
- No tem que ver: est ou no est mudado? Cava ou no cava o dia inteiro, como ns ?

- Realmente... E at os mais renitentes foram cedendo terreno. A prpria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resoluo, enchia agora os olhos
de paz ao v-1o a tratar do estrume para as prximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso no esquecer de tirar a esmola para a festa, e que
a respeito de arraial a coisa havia de ser falada.

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0 padre, esse, andava de corao em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, s compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde
que Firmo parecia aclimatado a

Vilarinho, at a vida lhe sabia melhor.

-Com que ento desta vez sempre ficas por c?! - foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.

- como dizes. 0 bom filho  casa torna... E Vilarnho assentou de vez que o rprobo, afinal, ganhara juzo, tomara nas mos macias as rdeas duras da casa e dera
ao demo o que  do demo - o mundo.

Nos Reis, para aumentar a receita destinada  romaria, fez-se um peditrio. E o Firmo, que tocava violo, puxou ali pelas seis cordas corno

um valente.

-Ora v l tu se no e melhor a vida que agora levas do que andar como um malts por l! - dizia-lhe o padre Joo, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto
de maluquice.

- Na verdade...
- No h que ver: onde encontras tu terras

como esta? Bom po, bom vinho, bons ares, e em

nossa casa, ao p da mulher e dos filhos 1

0 mundo dera a Firmo luzes para alm das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o

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padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal e qual um castanheiro, redondo, macio, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que no havia foras que o fizessem
mudar. S a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador at aos vinte, que se casara, que no tinha estudos, -sem

nenhum apego  terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem
proclamara que o seu

reino no era deste mundo, -ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado s veras como os juncos s nascentes! As razes que apresentava eram sempre as
mesmas. Tantas vezes

as ouvira que j nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de h vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer - pois sabia
que no o movera

nenhum dos argumentos invocados -, entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significao. Mandavam-no curvar-se de pura admirao diante de uma vida sem fendas,
inteira como um rochedo. Que bicho! Nem o prprio bispo pudera com ele. Metera a viola no saco e deixara correr. 0 bloco de pedra talvez estivesse errado em stios
onde j no tivesse valor o tamanho do natural. Em Vilarinho, metia respeito.

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- assim. Eu vou  Vila, ando por l a

dar as voltas precisas, e s duas por trs tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. H l nada como a nossa
casa!

- So feitios, senhor padre Joo... - tentou, em todo o caso, o Firmo. - A vida...

- Quais feitios, qual vida! Firmo calou-se. 0 amor daquele homem  terra era to absoluto como o seu prprio amor

 vastido do mundo. Para qu discutir?

- E de festa, que tal vamos? V l isso! No me deixes ficar mal...

- Est justa a msica velha de Constantim, encomendmos o fogo em Cabeda e os saiais so de Sabrosa. Pregador, o senhor padre Joo dir...

Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! L diz o ditado: Infeliz pssaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre
para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.

Mas na vspera da Senhora da Agonia, roido no se sabe por que melanclica inquietao, Firmo, que lutara como um heri durante um ano para se aguentar ali, bateu
 porta da residncia.

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-D licena, senhor padre Joo? -Entra, Firmo. Alguma novidade? -Nada de importncia... No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.

- Bem. Isso  que eu gosto de ouvir. Sem palavras para desiludir aquela confiana, peado, o desertor comeou a gaguejar:

-Pois  verdade... Afinal...
0 padre, ento, olhou-o com a sua penetrao profissional de confessor:

- Desembucha! E Firmo escancarou-lhe a alma:
- No posso mais, senhor padre Joo. Embarco amanh e venho dizer-lhe adeus.

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0 CAVAQUINHO

0 Ronda era o homem mais pobre de Vilela. Mas teve uma tal alegria quando o filho, o Jlio, fez o primeiro exame com ptimo, que prometeu pela sua salvao que lhe
havia de dar uma prenda no Natal. 0 rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado. Apesar dos dez anos, j conhecia a vida. Uma prenda, se nem dinheiro havia para broa! Em
todo o caso, pelo sim, pelo no, foi pondo de

vez em quando uma acha na lembrana do pai, e em Dezembro, na vspera da feira dos 23, avivou a chama:

-Ento sempre vai  Vila?
- Pois vou. -E traz-me a prenda?
- Trago. Fez-se silncio. A ceia tinha sido caldo de couves e castanhas cozidas. Mais nada. A noite estava de invernia. Sobre o telhado caam btegas rijas de chuva.
E como a casa era de pedra solta

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e telha v, cheia de frestas, o vento, que parecia o diabo, de vez em quando entrava por um buraco a assobiar, passava cheio de humidade pela chama da candeia, que
se torcia toda, e sun-a-se por debaixo da porta como um fantasma. Mas a murra de castanheiro a arder e aquela firmeza com que o Ronda garantiu a promessa, doiravam
tudo de fartura e aconchego.

-Eo que  quemevai dar?
- Isso agora...
- 0 que ?! Foi preciso a me arrumar o assunto com as

rezas e a cama.

- Infinitas graas vos sejam dadas, meu Deus e meu Senhor...

As palavras saam-lhe da boca lmpidas, quentes, solenes. E o pequeno, que j ouvira aquela lenga-lenga milhentas vezes, sempre a cair de sono, ps-se, muito espevitado,
a tentar compreender o sentido ntimo de cada invocao.

- Santo Andr Avelino nos livre de morte repentina...

Pai e filho respondiam  uma:
- Padre-nosso, que estais no cu...
- So Bartolomeu nos livre das tentaes do demnio, dos maus vizinhos  porta, das ms horas...

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- Padre~nosso... Contudo,, a ateno do garoto no tardou a

cansar-se. No terceiro mistrio a sua voz cambaleava. E na Salve-Rainha, abbada do solene ritual, parecia que levara com uma moca na

cabea. Ia j a tombar no preguiceiro, quando o

amm definitivo o fez voltar  vida. Escorou ento as plpebras com toda a fora que pde, e l conseguiu fitar o pai numa derradeira pergunta:

- Certo, certo, que traz? A me  que lhe no deixou arrancar a ltima confirmao desejada. Pegou-lhe no brao adormecido, ergueu-o, quase que o arrastou at ao
quarto, e da a nada o Jlio caa num sono fundo, toldado apenas pela incerteza em que adormecera.

De manh, quando acordou.@ j o pai tinha partido. A Vila ficava a trs lguas e a feira comeava cedo. 0 costume. Foi ento prender a cabra, numa preocupao gostosa,
morna, que lhe dava vagares em todas as encruzilhadas, enlevado a olhar as silvas e as pedras.

- Tu parece que andas parvo, rapaz! A me no podia compreender o que significava para ele receber uma prenda - estender a mo e ver nela, no a malga de caldo habitual,
mas qualquer coisa de inesperado e gratuito, que

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fosse a irrealidade da riqueza na realidade duma pobreza conhecida de ls a ls. Por isso se arreliou tanto quando o viu, ao almoo, virar a cara

aos carolos, e ao meio-dia comer apenas o rabo de uma sardinha.

Pronto, s lhe faltava agora mais essa desgraa! Que o filho ficasse doente. Um dentinho real a deixar o caldo 1

Coitada, via-se bem que gostava dele...
0 que ... E to fcil de perceber!

Quando a noite veio caindo dos lados de S. Cibro, cansado de guardar o caminho velho por onde desde que o mundo  mundo se regressa da Vila, pediu  me que o deixasse
ir esperar o

pai. S at  Castanheira...

Se no via a nvoa a cobrir tudo! Se no ouvira as Trindades! Tivesse juizinho.

Olhou a me mais demoradamente. To sua amiga, to boa, e no ser capaz de entender!

Resignou-se. Ficaria ali at o pai apontar ao fundo da Silveirinha. E logo que o descortinasse,  pernas! Mas que seria a prenda? Que seria ?

0 nevoeiro, que quando a me falou cobria apenas o monte de S. Romo, descera agora espesso e molhado sobre o povo. E com ele viera tambm a noite.

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Da Porta j se no enxergava nada. Alm de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram naquela hora, enregelavam tudo. A tremelicar, foi-se chegando  lareira.

- 0 pai demora-se... -No que ir  Vila e voltar tem que se

lhe diga...

Via-se bem que tambm ela estava inquieta. Seria que, como ele, esperasse por uma prenda?

Cerrou-se a escurido. 0 aguaceiro agora cala a cntaros. Pelas frinchas da casa o vento ia dando punhaladas traioeiras.

- Valha-me Deus!
0 lamento da me acabou de encher a cozinha, j meia testa de fumo.

- Que noite! E aquele homem por l! Olhou-a com s@ olhos vermelhos da fogueira de lenha verde.

De sbito,  ideia da prenda, que, alegre, o acompanhara todo o dia, juntou-se-lhe um,4

outra, triste, imprecisa, que lhe meteu medo.

-0 tio Adriano tambm foi> pois foi?
- Foi. Novamente um grande silncio caiu entre eles. Mas durou pouco.

-Vais cear e dormir, que so horas.
- Eu queria esperar pelo pai!

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Vais cear e dormir... Embora obrigado, nem o caldo lhe passou pela garganta, nem o sono, na cama, lhe fechava os olhos. No escuro ouvia a me chorar, suspirar, e
as btegas grossas e pesadas a martelar o telhado.

De repente sentiu passos no quinteiro. At que enfim! Era o pai! 0 que seria a prenda ?

A pessoa que vinha bateu de leve e chamou baixo:

- Maria...
- Quem ? - perguntou a me.
- Sou eu, o Adriano...
0 corao deu-lhe um baque. Ento o tio Adriano voltava sozinho?!

Ps-se a ouvir, como um bicho aflito. E da a nada sabia que o pai fora morto num

barulho, e que no stio onde cara com a facada l ficara,.ao, lado dum cavaquinho que lhe trazia.

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A RESSURREIO

No h em toda a montanha terra to desq-raada e to negra como Saudel. Aquilo nem so casas, nem l mora gente. So tocas com bichos dentro.

Apesar disso, Cristo Nosso Senhor, aos domingos, digna-se visitar a aldeia na pessoa do padre Unho, que vem rezar missa ao nascer do sol.
0 padre apeia-se da gua, assoa-se a um leno tabaqueiro encardido, tesse, d duas badaladas no sino, e entra numa igreja to escura e to gelada que se lembra sempre
duma pneumonia dupla. Diz o intrito com muita solenidade, sobe as escadas de granito, l, tresl, vira-se, volta-se, benze-se, e, por fim, prega.  sempre uma descompostura
de cima abaixo. Que ningum presta. Que os pais so assim, que as mes so assado, que as filhas so porcas, que os filhos so brutos, que  tudo uma misria.

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Saudel, abismado, ouve. Depois,  sada, pe-se a ruminar. Quem ir dizer l em cima to mal do povo ? Os homens cavam de manh  noite, as mulheres parem quantas
vezes a Virgem Maria quer, os rapazes e as raparigas vo com o gado...  Quem ir meter coisas daquelas nos ouvidos de Deus?

Seja quem for,'o certo  que no domingo seguinte, Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomea a ralhar. Que o fim do mundo est perto e que no
haja iluses. Todos para as profundas dos infernos! Os velhos, as velhas e os novos. Ficam s as ovelhas.

Saudel, ai, desespera. Chora umas lgrimas negras, barrentas, e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor! 0 que no teriam dito de Saudel no cu!

E o pior  que nem o prprio padre Unho descortina sada para semelhante calamidade, depois da falncia do remdio que tentou. Seguro de que a misericrdia divina
tudo pode, resolveu salvar o desterrado lugarejo e a sua endemoninhada gente, atravs dum acto colectivo de expiao. Endoenas. Estava a Semana Santa  porta. Realizasse
o povo endoenas, e remisse os pecados na dor e na orao.

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Saudel, lanzudo como os carneiros, nem sequer percebeu. 0 que eram endoenas?

E foi preciso o proco explicar. Eram a

Paixo e a Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo, representadas ao natural. Vinham o Senhor padre Gaspar, o senhor padre Abel, o senhor padre Artur, o senhor padre
Rego... De Cristo, Nosso Senhor, fazia o Coelho, que nem de encomenda para o papel.

- 0 Coelho?!!! - e Saudel olhou, assombrado, o homem da Joana Perra.

- Tem semelhanas... -Com Nosso Senhor Jesus Cristo!! -e a

mulher, que nunca dera dez ris pelo marido, um lingrinhas que nem filhos lhe fizera, media o

consorte de cima abaixo.

- Tanto quanto possvel... - esclareceu o prior.

- De Herodes, talvez o Daniel. De Judas...
- Eu no! - defendeu-se o Albino. -Tu mesmo. De Centurio, o Roque. De soldados, os quatro filhos do Zeferino. De Vernica, a Isabel...

Saudel deu com a cabea nas fragas, a matutar

no caso. Repentinamente, viam-se todos transfigurados, j nenhum seguro da sua prpria realidade. E quando, depois de alguns dias de

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ensaio, o Seara foi  Vila alugar saiais, e regressou com uma carrada de capacetes, de lanas, de togas, de turbantes, de asas, de vestidos de veludo, cada qual,
a tomar conta e a experimentar os

adereos que lhe pertenciam, sentia-se realmente outro, por fora e por dentro. De capa ver-

melha, coroa de espinhos e cana verde na mo, quem  que reconhecia o Coelho de outrora? Nem ele.

Segue-se que na Quinta-feira Santa,  noite, a povoao mudara inteiramente de fisionomia.
0 seu nome, agora, era Jerusalm, e a multido assistia de corao alanceado ao martrio do Salvador. E que martrio! 0 Armindo, a Caifs, duro como um chavelho.
0 Arranca, a testemunha, ningum queira saber. A Rosa, uma

coninhas de Maria Madalena, se havia de agarrar num estadulho e comear a eito, no senhor. A chorar, a ador-lo, meu Deus, meu Jesus, e mais nada. 0 Carlos, a neg-lo
trs vezes.

Com gente assim, que havia o pobre do Coelho fazer ?

Olha, deixar-se imolar como um cordeiro inocente. Apenas os juzes, do Pretrio, deram a

sentena, ento os filhos do Zeferino no lhe atiram com uma cruz de castanho para cima do lombo, que pesava para a quatro arrobas, no

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o fazem subir o cerro do Calvrio, e l no o pregam, no o iam, e no lhe metem pela boca dentro uma esponja de fel?! S a tiro. Palavra de honra que s a tiro!
Trs horas naquele suplcio, enquanto o padre Gaspar, dum plpito armado debaixo de uma carvalha, berrava que parecia maluco.

Diante de um tal sofrimento, Saudel olhava o Coelho   e via-o Cristo mesmo a valer, a dar a vida por  ns. E foi com orgulho que a Perra, s tantas, o viu inclinar
a cabea e ficar-se. Os soluos  que ouvia  volta eram palmas doutra maneira.

Ufana da aurola que nmbava j o marido, e a envolvia na mesma glria, numa aberta de lgrimas foi  sacristia tomar providncias domsticas. Afinal, como era?
0 seu homem estava praticamente em jejum. Queria saber se lhe poderia chegar qualquer coisa. Um migalho de trigo com queijo, ao menos...

0 seu homem acabava de morrer. Iam desc-lo e fazer-lhe o enterro.

De rabo entre as pernas, voltou ao lugar e ao pranto, enquanto o Coelho, muito amarelo, sem dar acordo de si, todo bambo do corpo, era despregado pelos dois Rs,
que faziam de Jos de Arimateia e Nicodemos.

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Apararam-no as Trindades, muito asnas no papel de Santas mulheres, e deram-lhe sepultura numa ea armada no meio da igreja. Entraram com ele pela porta lateral,
estendido na mortalha, cada uma a pegar na sua ponta, e encafuaram-no no buraco da urna. Os Zeferinos, claro, apenas elas o depositaram l no fundo, logo ali como
corvos a guard-lo.

- Ordem de Pilatos!
0 Senhor Verruma! No contente com lavar as mos numa rica bacia - que no tinha culpas naquela morte -, punha-lhe agora soldados de planto!

Ao fim da tarde, a Perra e Saudel estavam secos, de tanto chorar. Mas de que valia ? Os padres, no altar, no acabavam as mesuras e o cantocho. E olha l que os
Zeferinos, entretanto, largassem o sepulcro. Ali, especados, como guardas republicanos.

 noite, nuin dos intervalos das cerimnias, a Perra foi ter novamente com o prior. 0 homem morria-lhe mesmo, sem uma pinga de caldo h tanto tempo.

- Se morrer, rezo-lhe o responso. Comeou, tem de acabar.

Resignada, foi ela meter um cibo  boca e dar penso aos bois.

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Mas de manh no pde mais. De joelhos, chegou-se ao tmulo.

- Manuel... A resposta foi um empurro do filho mais novo do Zeferino.

- Tire-se da! Fariseus! At que bateu o meio dia. 0 padre Unho deu o sinal, e comeou a cantar.

- Ale... ale... ale... lu... ia... A Matilde, que fazia de anjo, apareceu, sem se

saber como,  beira da sepultura, levantou-lhe o

tampo, e mostrou-a aberta e vazia.

- Non est hic... Qu?! No estava l?! No estava l o

Coelho? 11 ---

De olhos arregalados, atnita, a multido no queria acreditar no que via. Nem vivo, nem morto?!

Como o prior ensinara, mal o anjo disse o

latim, os filhos do Zeferino puseram-se em fuga pela nave fora. E foi ento que a Perra, sada do estupor em que ficara, gritou aqui-del-rei pelo seu homem.

Solidrio com aquele desespero )astificado, Saudel em peso cau como um abutre em cima dos quatro facnoras e da tropa fandanga por conta

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de quem estavam a soldo. No faltava mais nada! Faziam-lhe trinta judiarias, crucificavam-no, davam-lhe sumio, e ao fim 6 pernas para que vos quero! Ora ali tinham.
Eles e o resto da comandita.

Transformada num campo de guerra, a igreja

era um lago de sangue. De nada valia o furor do padre Unho, a clamar em altos berros do altar contra aquele remate selvagem da santa cerimnia. Surdos s razes
do abade, s atentos  voz ntima da indignao, todos vingavam como podiam a injustia cometida, numa viril ressurreio do sagrado humano, que apenas o

sino, a repicar l fora, parecia compreender e festejar.

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UM FILHO

Contemplado do alto da Mantelinha, o mundo parece tudo menos um vale de lgrimas. Em janeiro, ento, quem no  cego da alma e, de l, v tudo em redor coberto de
neve pura, mesmo

que seja pastor e tenha o gado na loja morto com fome, acaba por acreditar que a terra

foi gerada s para ser possvel uma brancura assim. Por isso no admira que em Provezende ningum tivesse entendido a simplicidade com que o Rebel um dia desceu
do monte, falou  filha do Jaime, a pediu em casamento, a recebeu, e com ela e a maluquice se foi. 0 Rebel era a fraga cimeira da Mantelinha, lavada todos os dias
pelo bafo do cu; e Provezende fica nos fundegos da Ribeira, aonde at o ar chega por favor. De forma que no podia de nenhum modo ter olhos para tamanha claridade.
 prpria Jlia,  noiva, valeu-lhe ser dona dum corao feito de confiana,

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e os seus vinte anos poderem mais do que todas as razes sensatas. De contrrio, ali ficaria a

chorar a me, que morrera h anos, a ralhar

com o pai, sempre metido no vinho, sem nunca conhecer sequer o perfume das giestas da Mantelinha.

0 velho, numa hora de bebida regrada, ainda lhe disse:

-Quem bem fizer a cama...

Mas ela ouviu-o a pensar na desgraa em

que viviam. E como era animosa, e a idade lhe pedia um homem a cheirar a urzes e com ar de lobo, gostou do rapaz, casou-se, ps  cabea as duas mantas que herdara,
e a seu lado meteu-se pela encosta acima  ventura.

Quem bem fizer a cama...

De pouco valia o eco das palavras paternas a persegui-Ia! Levada nas asas da imaginao, chegou leve de preocupaes  porta do ninho, e, com cinco ris e um prego,
fez tal barulho, que da a dias o casebre solitrio da Mantelinha parecia o Palcio da Iluso. E o Rebel, ao meio-dia, depois de regressar das lombas e comer o caldo,
debruava-se  janela, punha os olhos no craveiro a estalar de cravos e nas dez lguas  volta cobertinhas de sonho, e dizia  mulher:

- Nem h riqueza como a nossa, 6 Jlia!

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E no havia mesmo. A Mantelinha era ja de si um paraso; mas agora a Jlia cozinhava, varria a casa, ameigava os cordeiros, e aqueles cerros de pedra ressumavam
ternura. Depois, nem de propsito, a primavera pegava-se a tudo, e o Barbas, o chibo, e o Roberto, o carneiro, no paravam.

- Pronto. 0 pessoal rachado do rebanho est coberto... -disse uma noite o Rebel  mulher. -S faltava a Rucinha, e foi hoje. Vai ser um cu aberto de criao.

-Pois eu tambm...
- 0 qu?! Era o que ela lhe dizia. A Mantelinha ia ter que contar.

0 Rebel j no pde dormir. Um filho! Um filho seu, ali, no alto das fragas, a saltar como um cabrito!

De manh, pela primeira vez na vida, deixou a cama sem vontade. Como que lhe doa j separar-se dele, do menino, que a imaginao quente lhe fazia ver nado e criado,
muito parecido consigo, dentro do corpo adormecido da Jlia. Mas l se ergueu. Com jeito, para no acordar a

me e a criana, saltou do catre, vestiu-se, abriu a porta, desceu a escada, tirou o gado da loja, e, meio sonmbulo de felicidade, meteu pela

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serra a cabo, nimbada quela hora da indecisa luz do Sol que vinha vindo.

Regressou mais cedo que de costume. E, mal fechou a Porta do quinteiro ao rebanho, e a mulher lhe apareceu com o ar de ma camoesa que tinha, pegou nela em peso
nos braos, balouou-a ao de leve, e ps-se a cantar o Dorme, dorme, meu menino... A Jlia ria-se. E ao almoo, enquanto o via engolir as batatas com uma fome esgalgada3
comeou a deitar contas  vida. Tudo muito bonito, mas faltava o melhor. Precisava de lenis, de toalhas, de faixas, de cueiros...

Como bom pastor que era, o Rebel, em matria de partos, no passava da simplicidade dos das Ovelhas. E ainda ela estava a meio do rol das necessidades, j ele corria
pelas quebradas na companhia do garoto, que havia de ser um rapagio e amigo dos ares da Mantelinha.

A Jlia  que no desistia. Visse l bem! No podia Parir como as reses do monte... Tinham de ir a PrOvezende fazer algumas compras.

0 Rebel acabou por ouvir, e prometeu que sim, que iriam. Levavam quatro cabritos, e o que eles rendessem... Mas no havia pressa... Quando

nascia o Pequeno? 0 qu?! Em janeiro?! No pino do inverno?! Juizinho! Ao menos deixasse vir o Maro. No via como as crias da Peluda

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tinham morrido de frio? Em Maro. Em Maro  que estava bem.

A Jlia ouvia-o com um sorriso no olhar. Muito gostava ela daquele demnio! Agora lun~ tico, isso era. 0 cachopo subira-lhe  cabea. Estava cada vez pior. 0 menino,
o menino, e no saa dali. Pensar a srio nos precisos do parto, isso no era com ele. Largar a Mantelinha, s para casar, e nem ela sabia que santo o encaminhara...
Mas agora as coisas mudavam de figura.

- Quando vamos? Estou aqui, estou de cama... - comeou a ameaar.

-L para a feira dos nove. Levam-se os dois cabritos da Riscada, o da Arisca, o da Mocha, vendem-se...   At podias ir tu sozinha. Quem h-de ficar com o gado? Mas
no vale a pena afligir. Temos tempo...

E houve realmente tempo para o Rebel se perder em devaneios pelos montes., a propsito de tudo e de nada. Um filho! E enchia tanto o peito de ar, que parecia que
engolia o mundo. Um filho!

Em Dezembro, a mulher, de grossa, parecia um odre.

-No te resolvas, e eu quero ver depois... E o Rebel a sonhar. Calma! Antes de Maro no queria gente nova na Mantelinha...       Vinha a um janeiro!...

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- S tenho medo que me chegue a hora...
- Deixa passar o inverno. E a hora chegou inesperadamente, depois de um grande nevo caiar a serra enquanto eles dormiam.

- Vai-me buscar algum pelo amor de Deus, homem! Vai-me buscar algum! - pedia a Jlia, no pnico das primeiras dores. -E o meu pai que te empreste o que puder.
Tanto te disse...

Desorientado, o Rebel no ouvia nada. Ia, ia, no se afligisse. Trazia tudo. Mas qu?! Nascia j? J de repente? Com o frio que estava?

Ela sabia l! As dores  que eram de matar... Cada guinada!

As ovelhas na loja comiam-se de fome e

berravam. 0 Rebel foi-lhes cortar uns ramos' a ver se as calava. Qual o qu! Queriam monte. Monte num dia daqueles! E l estava a mulher

outra vez...

- Vai-me buscar algum, homem! Vai-me buscar algum...

0 Rebel chegou-se  janela. Tudo to branco, to puro, e o gado a berrar, a mulher a berrar... Que tristeza de mundo!

-Vai-me buscar algum... Voltou-se.   Olhou a parturiente aterrado. Inexplicavelmente, sentiu-se estranho ali e aco-

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vardado como diante de. um fenmeno sobrenatural que fosse acontecer. E perguntou de novo e a medo:

-Mas nasce j, j? A Jlia, porm, respondeu-lhe com um grito to lancinante, que ele, atarantado, agarrou no chapu, abriu a porta de repelo e, sem saber bem o
que fazia, meteu-se pela neve fora.

Quando chegou a Provezende era quase noite. Com ar de quem tinha visto lobo, entrou em casa do sogro a gaguejar. A Jlia estava para ter um filho... Ficara deitada,
comidinha de dores...

Se no se envergonhava de a deixar sozinha num ermo daqueles?!

Envergonhar, verdadeiramente... Fora ela que o mandara buscar algum, e pedia at se fazia o favor de lhe emprestar alguns precisos...

Precisos... precisos...  Onde tinha o Jaime os precisos ? Um rico chefe de famlia que o genro lhe sara, no haja dvida! As ovelhas, as ovelhas ... Bem que dissera
 filha: como fizeres a cama ... Fora fazer a cama na Mantelinha com semelhante maluco, recebia o pago...      E quem queria ele levar? A me estava debaixo da terra;
as irms eram novas e nunca tinham visto sequer... Bem ` adiante. S a Joana Pedra. Mas a Pedra ia l a tais horas  Mantelinha 1

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De mais a mais numa noite assim! Em todo o caso, fosse falar com ela. Morava mesmo no largo...

Saiu atordoado. No seu entendimento simples no cabia tanta lgica. 0 filho, de que j conhecia as prprias feies, sempre nascera sem nenhuma complicao. 0 milagre
de ele existir tinha-se dado j, no momento em que a mulher lhe anunciara a

gravidez. Depois disso, a espera de meia dzia de meses fora uma espcie de tempo de purificao. Mais nada. Por isso nem entendera a Jlia a

pedir auxlios alheios, nem o sogro a descomp-lo, nem a Joana Pedra, agora, a prolongar-lhe o desespero.

-No fervas em pouca gua, rapaz! 0 primeiro demora sempre muito. S l para amanh... Anda-me chamar, ento.

0 cu parecia de breu. Levantara-se vento e

chovia. E pela serra acima, o Rebel, alagado em

gua, tentava romper as btegas e a negrura daquela hora.

Um filho... A palavra e o significado dela tinham tal nitidez, tal simplicidade, que no conseguia partir dali para a sua aflio.

Insistia: Um filho...

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E cada vez estava mais longe da mulher a

gritar, do sogro a trat-lo mal, da Joana Pedra a largar sentenas.

Chovia sempre. A neve, a derreter-se, descia em enxurradas pelos valeiros e ensopava os caminhos. Mas nem toda a gua e todo o frio do cu conseguiriam arrefecer
a imaginao do pastor.

Um filho...  No alto da Mantelinha... E o calor da alucinao aquecia tudo. A escurido apertava-o como um n. E o Rebel acabou por encontrar no esforo fsico dos
olhos a sntese do que sentia na alma. Muito negra era a vida, afinal!

Um filho... E parecia to clara, aquela palavral
0 vento, que no vale apenas assobiava, no

planalto, onde a choupana se erguia, uivava como

um co agoirento...

Culpado e vencido, aproximou-se do vulto atarracado do lar. Voltava de mos vazias... Mas

q ^I Ningum o atendera!...

ue.

Subiu as escadas, pasmado com o silncio que vinha de dentro da casa. At o gado na loja parara de berrar[

Empurrou a porta a medo. Um filho...

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E tinha realmente um filho nos braos da mulher adormecida. Um filho simples, natural, sem precisos, sem Joana Pedra, sem faixas, sem cueiros, sem nada.

Um filho que o acordou cedo a gritar com a

mesma fome do gado, e que,  tarde, quando regressou do monte, lhe fez dizer  mulher, depois de pegar nele ao colo e de olhar da janela o mundo outra vez coberto
de sonho:

- Nem h riqueza como a nossa, 6 Jlia!

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A PROMESSA

Fizera a promessa em Piau, Minas, quando, depois de o rio Doce crescer, encher   as margens de traras e secar, se levantaram tais febres que no havia quem lhes
resistisse. 0 -engodo de terras a quem as quisesse cultivar     arrancou o

Lucas da mercearia Barros & Cia.,      em Juiz de Fora, e metera-o no comboio da         Leopoldina Railway, a caminho da mata. Um fazendo, na

verdade, que o Estado lhe ofereceu de mo beijada, a troco dum requerimento. Cada jacarand, cada garapa, que o desgraado abria os pulsos s machadadas ao toco,
e as bichezas em p.  custa de muito suor, l conseguira fazer uma derrubada, plantar um cafezinho, e um migalho de cana, semear dois ps de milho, e poderia alargar
mais ainda os alicerces da riqueza futura se aquele

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excomungado rio Doce se no pe para ali a

inchar como uma mulher, e no acaba por parir tais sezes, que era tudo a eito.

0 curandeiro da regio, o Albino, um negro que metia medo s onas, bem jurou que os seus

frascos de homeopatia curavam doenas deste mundo e do outro. Qual o qu! Se no se agarra  Senhora dos Aflitos com unhas e dentes, bem que batia a bota.

Que lhe fazia uma festa no seu dia, sozinho,

sem a ajuda de ningum, se ela lhe valesse. E como a santa o ouvira, e era homem de palavra, cinco anos depois, quando conseguiu arrancar

daquele cho tropical com que viver gravemente em Ludares, vendeu as terras, meteu-se s ondas, atravessou o Maro, subiu a serra da Forca, abraou toda a gente
da aldeia e tratou de dar andamento  promessa.

Queria uma missa cantada com acompanhamento, um sermo do padre Gaspar arrancado das entranhas da alma, e uma procisso solene que testemunhasse publicamente a grandeza
da hora em que tivera a vida por um triz. Homem simples, de corao sensvel, o Lucas desejava que o seu voto fosse cumprido como tinha sido feito - em pureza. Esquecia-se
de que a mulher, a pateta da Lucinda, desde que ele viera ardia em

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vaidades, e sonhava com um festo espaventoso que metesse arraial e comdias.

Ofendido na sua f, disse redondamente que no. Mas o Brasil tivera-o desaninhado muitos anos. Como no era porco, nem gostava de sujar guas de ningum, aguentara-se
na sua virtude. Por isso, agora, a Lucinda, que lhe conhecia o

fraco e o trazia pelo beio, abusava. Ou ele lhe fazia a vontade, ou tinham o caldo entornado.

0 Lucas acabou por ceder a respeito do arraial. Pois ento, sim senhor, concordava. E pagava, claro est. Respeitava os usos da terra. Comdias,  que no. S a
ideia lhe parecia j um pecado. A promessa fora a srio. Sabe Deus em que aflio!

A mulher, feita com o resto do povo, emoldurava-o nos olhos ramalhudos e brejeiros, que o entonteciam, e continuava na dela. Ou tudo, ou

nada. Que embirrao!

-Mas eu no prometi comdias, com mil diabos!

E que tinha l isso? Um esquecimento qualquer pode ter. Eram mais quinhentos mil ris para trs ou para diante.

Coava a cabea, desesperado. Palavra de honra que no se tratava de ninharias materiais. Pelo contrrio: s lhe daria prazer... Mas noutras

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circunstncias. Agora num momento solene como aquele! No. At a santa se podia ofender.

A Lucinda  que no desarmava. A Senhora dos Aflitos no era parva nenhuma. Que mal lhe faziam l no cu, as comdias? Pobre do Pinto, que andava com a cabea em
gua... Nem se podia imaginar o que custava meter na tola do Silvino o papel de noivo! Que soco!

-0 qu?! Mas ento... Pois  claro que andavam a ensaiar! No, estavam  espera das ordens dele! H ms e

meio. Por sinal, uma riqussima pea. 0 Casamento Escandaloso. De a gente morrer. Havia l uma cena!...

0 Lucas j nem ouvia, aniquilado com aquele sacrilgio ao voto que fizera. A grosseira intromisso dum espectculo profano na ntima religiosidade da sua gratido
doa-lhe no cerne da alma. Recuava ao momento da doena e via-se desamparado, a bater o queixo no meio da selva hostil. Nem a mulher, nem Ludares em peso, l longe,
lhe podiam valer. S foras sobrenaturais so capazes de vencer os impossveis deste mundo. E eram

agora essas pobres incapacidades terrenas que tentavam diminuir o preo que toda a fragilidade mortal deve ao poder divino! No. Santa pacincia!

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A Lucinda comeou a chorar. E depois de muitos soluos, declarou-se incapaz de resistir 

vergonha que ia ser. Por isso, saa de casa.

Diante duma reaco assim inesperada e bruta, que ameaava destruir-lhe a felicidade, o Lucas no teve remdio seno resignar-se. Fosse tudo em desconto dos seus
pecados.

Nas vsperas da festa ainda cuidou que Deus o quisesse ajudar. Estava ele no escritrio a contar juros e a meditar nas misrias humanas, entra-lhe a mulher pela
porta dentro trespassada.
0  Ruela, um dos principais actores, adoecera.

Aliviado dum grande peso moral, fitou-a com

ar de quem fora miraculado outra vez.

- Ah! sim? Mas ela no compreendeu. -E agora?! Quem h-de fazer de regedor, no me dirs ?

- Agora...  no haver comdias. Indignada com o disparate, a Lucinda bateu-lhe com a porta na cara. Ficasse sabendo que l haver comdias havia, nem que estoirasse
o mundo.

Voltou aos rendimentos e s congeminaes. Que gnio aquele!

Foi o Ruo, pau para toda a colher, que tapou o buraco. Em trs dias, o ladro aprendeu o papel.

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Mas decididamente que alguma vontade providencial estava pelo lado do Lucas. No prprio dia do espectculo, o Ruela morreu.

- Que azar! Parece praga! - lamentava-se a Lucinda, desorientada de todo.

S o Lucas, apesar de ter sincera pena do Ruela, se sentia bem por dentro.

- Pronto. Faz-se a festa religiosa, e acabou-se. Foi o que eu prometi.

Se a razo comandasse as nossas aces, evitavam-se muitos dissabores. Infelizmente, no  assim. Para conseguir os seus fins, cada ser humano  capaz de passar
por cima das coisas mais santas. Nem o corpo ainda quente do Ruela detinha aquelas conscincias desvairadas.

- No faltava mais nada! L por morrer um

soldado no se acaba a guerra...

A Ins, a viva' do Ruela, que morava mesmo no largo onde o palco j estava armado, assim que soube que a representao ia por diante, cobriu o xaile e foi ter com
o Lucas.

- Ouviu? Se voc me faz pantominas  porta no dia da morte do meu homem, eu at a alma lhe como, seu galhudo!

Aflito e atnito com o remate da advertncia, o brasileiro fez nova tentativa junto da mulher. Que tivesse d daquela desgraada. Considerasse

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que podia estar no lugar dela. Evitasse uma tal profanao. At Deus os podia castigar a todos.

A Lucinda foi como uma pedra. 0 povo queria divertir-se; o melhor stio era ali, no eir; tivesse a Ins pacincia. E acabasse l com os maus agoiros!

Rilhado de desespero, o Lucas passou a tarde a arder numa-fogueira de remorsos e dvidas. Devia logo de entrada ter cortado o mal pela raiz. No e no! Agora, claro,
abusavam da fraqueza dele. Quanto  insinuao da Ins, seria possvel?... Ou haveria ali apenas fora de expresso, rudeza de maneiras? De qualquer modo, desassossego
e aborrecimento.

E neste cenrio triste, a representao comeou. Antes, a msica de Portela executou solenemente uma abertura. E o Lucas, sentado ao lado da mulher, no pde deixar
de reconhecer que, realmente, coisa asseada!

A Lucinda, essa, exultava. Quando  que em Ludares se ouvira nada que se comparasse? E voltava-se na cadeira para ver se algum discordava. Ningum. Aquele mar de
gente, a olhar com avidez o palco, estava todo de acordo com

ela. Subisse o pano. Dum mastro alto, apenas um candeeiro iluminava frouxamente o largo. 0 Lucas reparou nisso

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e doeu-se intimamente de semelhante descuido. Afinal a festa era sua. No prometera comdias,  certo., mas j que se faziam... Que, diga-se a

verdade, podia orgulhar-se. Dum bonito assim gabavam-se poucos. Pena o pobre do Ruela... Claro que no tinha culpa da desgraa de ningum. Alm disso o povo  que
teimara... Bem, olha, adiante...

Estava na paz desta concluso, quando soaram

as trs pancadas. Oli, oh! Ia comear, e ele

com o juzo nos quintos! Arregalou os olhos. J que pagava, ao menos aproveitar.

Ao som estridente dum solo do Pelotas, a grande vedeta da msica da Portela, que na Vila, num concurso onde rebentaram trs rivais, ganhara um cornetim de prata
que lhe fora entregue solenemente pela esposa do Governador Civil, o pano comeou a subir lentainente.

L estavam dois homens no palco. Mas to disfarados, que os no identificava. A mulher deu-lhe um breve esclarecimento, que o confundiu ainda mais. 0 da direita,
a personagem principal, chamava-se Tic-Tac; o da esquerda, tio Barnab. (Muito alto tocava o raio do cornetim!).

De repente, o mestre da banda fez um gesto. E tudo  volta, num silncio sem respirao, ficou suspenso da boca de oiro do Marcolino!

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Era ele, o Tic-Tac. Agora  que o reconhecia.
0 ladro no mudara! A mesma cara estanhada, os mesmos dentes de cavalo e a mesma voz de qualquer, fosse quem fosse.  Marcolino, como

 que diz o Antunes? E logo a fala do Antunes a sair-lhe pelo nariz, muito arrastada, muito fanhosa: "- A puta da n-nha Margarida ... ". Uma risada. A representar,
ento, quando tinha um

bom papel, ningum lhe resistia. Cada resposta! L isso... De resto, bastava v-lo naquele preparo: um bigode de polcia, calas de fantasia, coco e

bengala. Descarado de todo.

Foi o justo, mais acanhado, que fazia de tio Barnab, a dar a sada.

Que me dizes, Tic-Tac, Da Pantufa ao casamento?

0 Marcolino nem pestanejou:

No me agrada o seu sotaque, Porque o noivo  um jumento!

A rplica arrancou uma gargalhada geral da assistncia. E o Lucas teve um arrepio. Mas o

justo continuava:

 que me diz um Fulano...

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0 que o Marcolino, lhe respondeu ainda foi melhor desta vez. 0 Lucas  que no ouviu bem.

- Que grande pea! - exclamou um velhote  sua frente.

E ele, to lorpa, que fizera tudo para empatar uma maravilha daquelas! Realmente, quando l na mata se vira em palpos de aranha, nem lhe passara semelhante coisa
pela cabea...     Depois, o caso do Ruela... Coitado, podia estar ali tambm, feliz da sua vida... E afinal... Ningum tenha iluses neste mundo. Mas, com trezentos
diabos, l perdera o fio  meada!

Voltou-se para a mulher: -Ele que diz? Ouviu protestos  volta. A prpria Lucinda o mandou calar, com o cotovelo. Calculem! Puxava pelos cordes  bolsa, e ainda
por cima... Felizmente que no gostava de armar questes. Calou-se. Ps-se a ver e a ouvir.

Uma senhora, precia-lhe a mulher do Anbal, entrara j em cena e chorava. Por que raio choraria ela?

Agora grande estardalhao nos bastidores. Ah!

era o Ruo que entrava, a fazer de regedor.

Autoridade!

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0 Justo fez de conta. E logo o outro:

Cabos!

0 Marcolino, claro, aproveitou a deixa:

Por favor, cabos de qu? De enxado ou de forquilha? Pois muito me maravilha Que seja vossemec
0 referido enxadio, Ou a possvel forquilha, Pai extremoso desta filha, Alis bem boazinha...

Toda a gente se ria. S ele, Lucas, no percebia nada. Apurou mais a ateno.

Ai!...

Abriu muito os olhos. 0 regedor puxava por uma pistola, e a mulher do Anbal, a seguir ao grito, desmaiava em cima do sof. Nisto, ouviu-se um tiro e caiu algum
no cho.

Morto!

0 corao do Lucas estremeceu.
- H ? Morto? A mulher deu-lhe nova cotovelada.

Morto! Morto quem eu amo!

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A plateia uivava. -Ouve, qual deles  que morreu? J toda a gente estava indignada. Queriam ouvir. Pouco barulho!

Continuava no palco a lamentao:

Amado destas entranhas, Cado junto a meus ps, juro-te aqui por quem s...

0 Roberto, estendido no soalho, no tugia nem mugia. E quando a amante, a Ldia, que fazia de filha do regedor, acabou a tirada, em vez dele, respondeu-lhe uma delirante
ovao da assistncia.

0 Lucas, ento, no pde mais. Merda para aquilo tudo! Morto, mortes, e toda a gente a gostar!

Ergueu-se. Seria bom, seria. Ele  que no estava disposto a incomodar-se mais.

Com dificuldade, rompeu por entre a multido, que nem o via, e saltou o taipal que rodeava a

plateia. A palavra funrea batia-lhe dentro da cabea. Morto. Morto...

C fora a lua dava em cheio na aldeia deserta. Uma solido de cemitrio cobria tudo.

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Sentia-se rarefeito como aquelas casas vazias.
0 cho fugia-lhe debaixo dw ps. No que dera uma pura e humilde devoo!

Ps-se a andar  toa pelo largo adiante. Depois, como um sonmbulo, comeou a subir as escadas do Ruela.

Empurrou discretamente a porta e entrou. Quase ningum. A Ins, o filho, o Lameiroto, a Amlia Gomes e o Concho Velho. 0 Ruela muito teso no caixo.

Avanou comprometido. Olhava tudo sem ver nada. S a custo descobriu a caneca de gua benta. Pegou no ramo de oliveira e deixou cair umas gotas em cruz sobre o defunto.
Virou a cara. A viva a olh-lo, como uma fera. Com as pernas a pesarem-lhe arrobas, arrastou-se at junto dela. E tentou falar:

- Ins... Sentiu cravados nele dois olhos alucinados.
0 morto cada vez mais severo, de rosrio na mo. A voz prendeu-se-lhe na garganta. Ficou calado,  espera.

Subitamente, o som do cornetim do Pelotas entrou por um vidro quebrado da janela e fez estremecer tudo. Parou-lhe o sangue nas veias. Num grande esforo, l conseguiu
repetir:

- Ins...

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Mas estava mesmo perdido.
- Por vergonha  que o no ponho daqui para fora a pontaps. Na mortalha do meu homem fazer-me esta pouca vergonha  porta! Seu badana! Seu grande corno!

A gaguejar, tentou cham-la  razo. Que fora o povo e a mulher. Ele, por ele...

A Ins, desvairada, nem o ouviu:
- Consumido seja voc nas profundas dos Infernos e mais a puta que o enfeita!

Ferido em todos os recantos da alma, olhou-a finalmente com firmeza. E havia no rosto dela tanta amargura, que baixou os olhos e s pde responder:

-Olha: quando tive a m sorte de fazer esta promessa, antes a Senhora dos Aflitos me

no tivesse ouvido e me deixasse morrer por l como um co.

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MAIO MOO

S quem j passou por elas ou tem imaginao  que pode fazer ideia do desconsolo que era a vida do Gonalo em Dornelo, rfo de pai e me, a ser criado por esmola
em casa do Anastcio. Fome, pancadaria, e o dia inteiro atrs do gado na serra como um escravo. Desprezvel e sem uma letra, metia d. Valia-lhe um pfaro de barro,
que trocara por um pio de buxo, que fizera  podoa, onde contava s fragas a sua melancolia de criana infeliz.

Enquanto as ovelhas, que conhecia uma a uma como se fossem pessoas, iam tosando o panasco das lombas, soltava ele as suas queixas, empoleirado nos lapedos. Lamentava-se
dum abandono humano que lhe doa no corao, vazio duma palavra de carinho ou de um gesto de ternura.

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Embora recebesse dos montes, sempre abertos e atentos s suas mgoas, a ddiva duma liberdade difusa, era do prprio bafo da aldeia que precisava, quente e ritmado
a bater-lhe na pele.

Esse calor, porm, estava Dornelo longe de lho dar. A solido do pastor entranhara-se de tal modo no quotidiano da povoao, que o viam entrar  noite e sair de
manh como se ele fosse um borrego do prprio rebanho que guardava. E o seu nome nunca ocorria a ningum, quando a arraia mida tinha lugar de honra  mesa da gente
grande.

Todos os rapazes da idade do Gonalo guardavam na memria uma aventura. Um fora de profeta na festa, outro vestira opa e segurara as borlas do pendo, outro pegara
na caldeirinha Ao dia - de Pscoa. Ele, nada. As grandes horas de -Dornelo passavam-se  margem da sua vida, rota e desamparada. Nem sequer fizera a primeira comunho.
Sem licena de ir  doutrina, enquanto os mais, de roupa nova e lao branco na manga do casaco, pisavam solenemente as lajes da capela, calcorreava o desgraado
as veredas do Cabril.

Assim decorria to negregada existncia, quando o destino compassivo lhe modificou a

catadura de uma maneira inesperada e bonita. Fria j de si, a Montanha naquele ano encara-

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melara de vez. Punha-se o nariz fora da porta, e as espadanas do ribeiro eram lminas de gelo a trespassar-nos. Mas que remdio seno levar o gado  serra, a pastar
o   sincelo!

Ora os nevoes, o nevoeiro e o codo so a bem-aventurana dos lobos. Num desses dias, em que s havia brancura de morte por todos os lados, de repente, surgido no
sabia de onde, o Gonalo deu com os olhos num a abocar-lhe uma cordeira.

0 co de guarda ficara-se na povoao, atrs duma cadela na caina. Alentado e de poucas festas, era ele que dava paz e segurana ao rebanho, numa vigilncia guerreira,
simbolicamente representada na coleira eriada de pregos. Por isso, sem aquela proteco, o mesmo terror que tresmalhou as reses, siderou o pastor. Garanho de frio
e de medo, o pobre coitado mal podia segurar no ldo. Bambeavam-lhe as pernas, e o coiro da cabea queria despegar-se-lhe dos ossos. Mas, subitamente, por mistrios
insondveis da natureza humana, ergueu-se-lhe dentro do corpo acobardado uma onda de coragem. E arremeteu com tal fria sobre o ladro, que parecia uma fera a avanar
sobre a outra.

- Grande como! -gritou, a dar solidariedade aos berros da ovelha agadanhada, enquanto levantava o varapau.

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Filado  cernelha da churra, o salteador negava-se a largar a bocada. gil e teimoso, tentava arrastar a presa e furtar-se aos golpes. 0 gosto doce do sangue exacerbava-lhe
a fome e assanhava-lhe a teimosia. Tanto montava as bordoadas choverem, como nada.

- Cabro! Cada vez mais desesperado, o cacete ia e vinha, numa raiva animada de minuto a minuto pela inslita durao da violncia.

- Larpio dos infernos! Impvidos, os montes, numa neutralidade polar, assistiam   luta. Nem os comoviam os balidos lancinantes da borrega, nem a angstia do garoto
a lutar  sobreposse.

-No a levas,    nem que te danes!
0 mpeto inicial, fruto da espontnea reaco a qualquer desafio que nos  feito, dera lugar a

uma serena e voluntariosa conscincia protectora. Rei dos animais pela razo, o pastor perdera o

sentido do perigo e o terror dele. Agora era um

inexorvel fiscal da ordem a impedir desmandos.

- Excomungado! Num salto imprevisto, o inimigo arredara-se de uma estadulhada que parecia certeira, e o

cajado batera em falso num frago.

-E esta?

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Desiludido com a percia da emenda, que foi rpida e lhe assentou em cheio no lombo  ' o lobo hesitou. Mas quando se resignou a abandonar a vtima e se disps a
fugir, o Gonalo cortou-lhe a retirada.

- Tem pacincia: agora ficas aqui! Disse, e redobrou a fora das mocadas.
- No pes os queixos em mais nenhuma! Derreado, o lobo arreganhava os dentes inutilmente. Com mais trs ou quatro amacios, estava liquidado, com a espinha quebrada,
cado aos ps do vencedor.

Calhou ser dia de feira em S. Loureno, e o Nicolau almocreve, que regressava a casa, dar de chofre com aquele espectculo: o catraio, plido de emoo e possudo
ainda da fria vingadora, a migar os ossos do agressor; este, esquadrilhado, a babar a neve do sangue da agonia.

-Com trinta milheiros de diabos! Tu onde arranjaste tanta coragem, rapaz?!

0 pequeno limpou o ranho do nariz.
- Filho de quem o pariu! Olhe o que ele fez!

Sem vaidade, singelamente, mostrava a mola que o empurrara - a ovelha morta. 0 Nicolau, e logo a seguir Dornelo,  que no viam no feito seno a valentia na sua
pureza original. Quantos

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e quantos, em semelhante situao, no teriam dado s de vila-diogo!

E a vida do Gonalo transfigurou-se. Relatada a faanha, e provada com a presena da bicheza, que percorreu o povoado em procisso, um outro sol iluminou os seus
gestos, as suas palavras, a sua solido. Todos passaram a dar-lhe a dignidade que lhe negavam at ali. Os grandes queriam proteg-lo; os pequenos imit-lo. A mestra
protestou que era uma barbaridade deix-lo analfa- beto; o abade declarou que Ia ensinar-lhe o cate-

cismo; a rao aparecia-lhe dobrada no bornal.

Comeara entretanto a primavera a despontar da terra e dos cus. No havia outeiro encardido que se no cobrisse de lrios, torgas e tojos em

aleluia. 0 rebanho, farto, anediava. E a flauta de barro trinava de manh  noite nos lbios do pastor, curados do cieiro.

- Muito bem toca o demnio do garoto! Heri do povo, aconchegavam-no orgulhosamente  fibra mais generosa do corao. Inventavam-lhe faanhas antigas, ditos cheios
de graa, habilidades que nunca tivera. Do deserto montono de outrora ia surgindo uma biografia rica, divertida, recheada de peripcias e de sentido. Pareciam abelhas
a encher um favo. Ningum queria deixar de colaborar na gesta redentora.

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-Uma vez vi-o eu, por causa dum ninho, subir ao alto do negrilho, que at a gente se arrepiava!

Dita, a mentira mudava logo de sinal aos

olhos do prprio mentiroso. Transformava-se numa verdade evidente. bolo de boa vontade deposto aos ps do dolo, passava a fazer parte da sua intangvel realidade.

-Tinha ele dez anos, quando deu tamanha capilota  minha burra! Saltou-lhe para cima do lombo, credo, santo nome de Jesus!

Pouco a pouco, iam tornando sobrenatural tudo quanto fora medocre na vida do pequeno. Uma glria sem razes parecia-lhes inverosmil. E doiravam-lhe o passado.
Forjavam-lhe a perfumada crnica dos que merecem, por qualquer aco grata aos semelhantes, que se lhes estenda aos ps, desde o bero  mortalha, um tapete de luz.

Mas nada disso os satisfazia ainda. E as proprias serras resolveram ento propor um remate

alegrico quela azfama nobilitadora. Cada vez

mais floridas, metiam pelos olhos dentro uma

apoteose de cor. Urdido o mito, que melhor remate do que nimbar a divindade da alegria conivente da natureza?

E o Gonalo at santas mulhei,'@s teve ao

servio da sua causa.

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- Para onde levas o gado, hoje? - perguntou-lhe  sada de casa a filha do patro, a Slvia, a olh-lo numa carcia de Madalena arrependida.

-Para o Vimieiro.
- Calha bem...
- Porqu? -Isso  c um segredo... Na sua inocncia, nem pensou no dia em que estavam, que era o primeiro de Maio, nem adivinhou a fundura da inteno. S  tarde,
quando encantava os penedos a arrancar melodias da Wina,  .que viu um bando de raparigas surgir j--tr,,. (luiii outeiro, como se fossem atradas pelo som dos
seu' trilos. Carregadas de flores de giesta, rodearam-no e puseram-se a adorn-lo como um deus.

Submisso, deixou-se vestir e coroar por aquelas mos carinhosas e devotadas do oiro que a imaginao h muito lhe prometia, e agora lhe era

finalmente entregue.

E assim, feliz e festivo, entrou em Dornelo.

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0 BRUXEDO

Apesar de a Gomes ter as farroncas que toda a gente sabia, a Melra foi-lhe quele corpo que lho derreteu. A maior coa de que h memria em Feitais! A velha parecia
o diabo, no parecia mulher! Que perdoava tudo, menos que lhe mordessem na reputao das       filhas. Estavam casadas, e muito bem casadas! Quem quisesse falar
de marafonas, falasse das da Vila Velha. E desancava a outra, com estas razes.

Feitais, embora no pusesse as mos no fogo pela honra de ningum, gostou do correctivo. A Gomes a dar lies de moral! Por que boca nos mandava Deus a verdade!

Os sessenta e cinco anos da Melra  que no eram para semelhantes avarias. Quinze dias depois do barulho, de to magra e desfigurada, metia pena.

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- Voc que tem, ti Joana? Anda to desolhada!...

-Nem sei. Dores no corpo, sem nenhuma vontade de comer, quebrada...

A Melra fora sempre como ao. A ter os filhos, era um ai que lhe dava; ao mato, punha cada carrego  cabea, que at as mais se envergonhavam; a segar, enquanto
as outras faziam cinco, fazia ela dez. Forte! Tambm lhe comia e bebia como uma valente. 0 homem, o Incio, quando iam s feiras, j sabia: onde ele virasse um copo,
ela virava outro. Uma mulher de armas! Mas, desde a tosa na Gomes, nem uma candeia, sem azeite, a apagar-se.

-L o que tenho, Deus  que sabe. Agora que no  coisa boa, no. Di-me tudo, repugna-me a comida, sinto palpitaes...

0 Incio, que tambm estava na casa dos setenta, e se sentia cada vez mais duro, no cerne
- garantia ele -, no entendia aqueles flatos. Porque eram flatos, sem dvida nenhuma.

-Eu no sou mulher de flatos! - protestava a Melra. -Quem pariu doze filhos como eu pari, sem um desejo, sem uma palavra que se

ouvisse na rua, no  de flatos!

-Pois olha que ou eu me engano muito... -insistia o Incio. -Que h-de ser?

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Na cabea da Melra andava um diagnstico  espera de se escapulir. E numa hora de maior fraqueza abriu-lhe a portinhola:

-At j me lembrou... Cala-te, boca      ... -0 qu? -Que me fizessem qualquer bruxaria       ... -Deixa-te de maluquices e v se tens propsito! S c faltava mais
essa!...         Valha-te Deus!

-Eu sei l! Sinto-me to cansada, to moda...

- So flatos. No  mais nada. -E tu a dar-lhe! As noites eram grandes e o Incio tinha tempo de aturar a mulher. Encheu-se de pacincia e ps-se a meter um pouco
de rigor masculino naquele juizo avariado. No havia feitios. 0 povo, ignorante,  que acreditava nesse e noutros disparates. Pusesse os olhos nas pessoas de certa
categoria... -Nunca se ouvira dizer que a senhora Fulana ou o senhor Sicrano andassem com o diabo no corpo. S a gente baixa, coitada, por falta de instruo...
Palavra de honra! Estava absolutamente convencido...

A Melra borrou-lhe o discurso: -Diz-lhe que no. A Deolinda comeou tambm assim, que eram maleitas, que eram

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febres intestinais, que eram sfilis, e vai-se a ver, tudo mandingas da Leopoldina.

0 Incio riu-se. Coitada da Leopoldina!
0 poder dela era tanto como o dele. E que motivos dera ela  Leopoldina para lhe fazer mal?

- A ela nenhuns. -Ento, j vs... -Pois olha que no se me tira do pensamento...

-s teimosa!
- Serei. 0 pior  o resto... Seco-me de dia para dia...

Diante daquele argumento, o Incio coou a

cabea. L que a mulher se sumia, sumia. A Leopoldina  que no era para ali chamada. A que ttulo ?

A Melra concretizou ento numa clara luz as penumbras da sua intuio.

- Por incumbncia da Gomes. To certo como Deus estar no cu! No se largam. Umas amizades, uns namoros...

-L vens tu com enredos, mulher! Trata de dorniii, e amanh vai ao Paliteiro que te venda sal amargo e toma-o. Isso ou so flatos ou  estmago sujo.

A Melra, apesar do purgante, no melhorou. E como tivera aquele grande barulho com a

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Gomes, e agora a Gomes no sala de casa

da Leopoldina, aqui-dei-rei que andava enfeitiada.

-Tenho a certeza! At dou conta quando me esto a coser a andilha! Acordo de noite com os alfinetes cravados no corpo!

-Valha-te um burro, mulher! Reloucaste. Depois de velha, reloucaste!

-Eu sinto! Eu sinto elas picarem o mono.

-Que mono?! S ao cabo de grandes explicaes  que o

Incio veio a saber do que se tratava. Era pelos modos uma figura de pano, que representava a

pessoa a desgraar, onde a bruxa fazia os malefcios. Judiaria feita no boneco, era tal e qual como se fosse em ns.

- Ests num lindo estado, sim senhor! E to s que tu eras do miolo!

A Melra, obcecada por aquela ideia, nem

ouvia as ironias do homem.

- E  que do cabo de mim, as coiras! Uma agonia, no se me abre a boca para nada, uns

apertos no corao...

- Bem, se at amanh no melhorares, vou-te buscar o barbeiro. Que hei-de eu fazer?! Assim  que no podes ficar. E que venha a Emlia tratar de ti.

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0 curandeiro da Azoia, chamado e posto ao corrente do que se passava, auscultou, apalpou, virou, receitou uma garrafada e prometeu a cura. Qual o qu! A Melra sentia-se
cada vez pior.

- Bota-te  serra a casa da santa, se me

queres viva! Leva-lhe uma camisa minha e conta-lhe tudo.

0 Incio, ento, resolveu cortar o mal pela raiz. Iam mas  no dia seguinte  Vila, consultar o Dr. Amaral. Santa! Santa estava a mulher da caixa dos pirolitos.

Deitou-se nessa firme resoluo, e acabara apenas de adormecer, quando, repentinamente, a Melra piorou. Foi-lhe fazer ch de cidreira e

deu-lho. A doente pareceu melhorar. Mas passadas algumas horas, j de madrugada, estava ele a pegar no sono outra vez, a Melra deu um

grande grito.

-Ai, que aquelas grandes putas atravessaram-me a alma! Ai! que eu sinto-me estrafegada! Ai Jesus, que eu morro! Ai...

0 Incio ergueu-se dum salto.
- Sossega, mulher, sossega! Valha-me nossa

Senhora 1

Palavras. A infeliz ficara-se-lhe j. Doido, sem um gemido que lhe abrandasse o desespero, tal e qual como saira da cama, em

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ceroulas, correu para a rua, desvairado,  procura de um socorro impossvel. Num relmpago, desandou a chave e levantou o gravelho. E, mal puxou a porta, caiu-lhe
aos ps um manipanso de farrapos todo cravado de alfinetes e com um grande prego de caibro espetado no stio do corao.

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A PAGA

As falas doces com que o Arlindo levava a gua ao seu moinho no lhas ensinara o pai, no, que era um santo. Mas v l fiar-se a gente em sanguinidades! Famlias
boas, ss, do s vezes

cada filho que at se fica maluco. Ali estava,  vista de todos, a demonstrao. Sem maus exemplos em casa, nado e criado numa terra limpa como Vale de Mendiz, e
Deus nos defendesse de semelhante boldrego! Rapariga em que pusesse o sentido, pronto. Tanto fazia saltar como correr: tinha que ser dele. E ento no se contentava
com qualquer! S lhe apetecia o melhor.

Mesmo no povo, desgraou a Arminda, uma

cachopa to dada, to bonita, que cortava o corao v-Ia depois, desprezada de toda a gente e comidinha dos males que lhe pegou. Em Guies> foi a filha do Bernardino,
pelos modos a coisinha
mais jeitosa que l havia.  Em Abaas, escolheu a Olmpia, uns dezanove anos que nem uma princesa.

Mas nenhuma como a Matilde, o ai Jesus de Litm. Descobriu-a na festa de S. Domingos, e j no a largou. 0 Rodrigo, o melhor amigo dele, bem o avisou: - Olha que
ali, tudo o que no seja n de altar...

No quis saber. Rapou do harmnio e abriu-o numa gargalhada.

- Borga, rapaziada! Haja alegria!
0 povilu, que no quer seno pndega, claro, a rode-lo, embasbacado.

Ora, isto de mulheres  o que se sabe. A tola, s por ver um fadista daqueles a derreter-se por ela, j pensava que tinha ali o rei de Portugal! A tia, a do Rito,
no caminho, ainda lhe perguntou se no sabia que menino ele era. Sabia, e que ningum se afligisse por via dela. E logo no

Domingo seguinte,  tarde, toda desenganada a

dar-lhe treta na fonte.

Moveu-se o povo. Tivesse tento na bola!
0 mundo nunca parira rs de to m qualidade. Ou j se no lembrava do que acontecera s outras ?

Nada. No ouvia ningum. 0 que l ia, l ia. guas passadas no tocavam moinho.

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0 rapaz assentara, falava-lhe com todo o respeito, e, to certo como dois e dois serem quatro, recebia-a.

0 manhoso, por sua vez, que tambm no,

havia dvidas nenhumas a tal respeito. Mal arranjasse a vida, casamento.

0 mais mau  que ningum lhe via arranjar essa tal vida. 0 Alfredo, o moleiro, a pedido de Litm, sondou a coisa em Vale de Mendiz, e voltou desanimado. Arraiais,
tocatas, danas, e nada de onde se visse sair propsito de coisa sria. E como o namoro ia de vento em popa -um

entusiasmo, uma loucura -, Litm, pela boca do prior, chamou a rapariga  pedra.

Pensasse no que andava a fazer. Fugisse das tentaes. Desse uma cabeada, e depois se

queixasse. Tivesse vergonha na cara e tratasse

de pr os olhos num rapazinho da terra, honrado e trabalhador.

Mas a Matilde andava viradinha do milo. Jurava sobre as falas do Arlindo como sobre os Evangelhos. Assim tivesse to certa a salvao como ele nunca tentara pr-lhe
um dedo e s lhe falava em bem.

Com semelhante conversa, Litm resolveu aguardar. No h como dar tempo ao tempo e deixar cada qual aprender  sua custa.

113
E viu-se o resultado. Um dia  noite, a Matilde prega-se em casa da Lcia, pe-se a chorar, a chorar, e acaba por declarar tudo: o ladro tinha-lho feito. Tantas
loas lhe cantara, tantas juras, tantas promessas, que cara como uma papalva.

Mas com quem o Arlindo se foi meter! Com os de Litm, gente capaz de limpar uma ndoa

com as lgrimas de Cristo! Fiava-se talvez em
* pai da rapariga ter idade e os dois irmos,
* Cndido e o A]bino, estarem no Rio. Ora oitenta anos em Litm. no tolhem um homem,

e o mar j no  o que era dantes!

0 justo, no desejo de compor aquilo, ainda o procurou, a saber que destino queria dar  filha. Meteu os ps pelas mos, que no podia casar agora, que as vidas estavam
muito ms, e mais aldrabices. Olha l que o velho lhe dissesse nada! Calou-se muito calado, virou-lhe as costas, e, nesse mesmo dia, carta para o Brasil.

Entretanto, a nova fora-se espalhando pelas redondezas. E ao cabo de algum tempo o nome

da Matilde simbolizava apenas a faanha mais atrevida e gloriosa do farola de Vale de Mendiz.

- No as deita em cesto roto! Isso  que ele pode ter a certeza! - garantiu o Brs, que

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sempre acreditara numa justia imanente. -

Tantas h-de fazer...

- J fez... - respondeu-lhe o Rodrigo, que, embora amigo e companheiro do Arlindo, no engolia aquela de se ter enganado. -Com os de Litm ningum brinca...

Em Maro, quando Vale de Mendiz se cobriu de camlias e mimosas, o Alfredo,  frente do macho carregado de sacas, deu a grande notcia: os filhos do Justo tinham
chegado do Brasil.

- Os dois? - perguntaram todos. - Os dois de  uma vez ?!

- Olarila! -Ento o Arlindo que se acautele. Mas nada parecia bulir naquele princpio de primavera. A Matilde h muito que calara as lamrias; o pai, a todos que
lhe falavam no caso, respondia secamente que a filha dele no era melhor do que as demais; e os irmos encheram a irm de prendas, tratavam-na como uma rainha, e
nem por sombras falavam no sucedido.

-A mim at a alma se me apertava com tal sossego -dizia de vez em quando o Rodrigo.
- Os de Litm engolirem uma pastilha assim!

- Que pastilha?! Eu quis, a rapariga quis, quem tem l nada com isso ?

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Farroncas. No fundo, tambm ele, Arlindo, andava de corao como a noite. Bem sabia que no se vem de repente do Brasil sem uma razo qualquer, e que se quisessem
resolver o caso a bem j o teriam procurado.

Entrou Abril, passou Maio, principiou Junho, e o mesmo fado corrido.

- Estou varado! - desabafava o Rodrigo.
- Palavra que estou varado!

Mas em Agosto, no dia de S. Domingos, quando o Arlindo estava nas suas sete quintas - 6 Arlindo, toca l isto, 6 Arlindo, toca l aquilo! -, chega-se o Rodrigo ao
p dele e segreda-lhe:

- Os Justos de Litm, esto a. 0 pai e os filhos...

Os dedos do meliante at se pregaram s

teclas da sanfona.

-E ela? -Ela veio c o ano passado, e bem lhe chegou...

J tinha saldo a procisso e quem rodeava a

estrdia enchia os ouvidos de som para o regresso a casa. E, como a msica esmoreceu, foram debandando e descendo a serra. Agora a festa era para os que tivessem
contas velhas a ajustar.

Comeou ento no adro um drama surdo, s interior. Os dois companheiros do Arlindo,

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o Rodrigo e o Gaspar, embora estroinas tambm, no estavam dispostos a arriscar um cabelo naquele sarilho.

- Quem as faz que as desfaa - dizia o Rodrigo, sempre que lhe falavam no caso.

E o Arlindo,  medida que a roda ia diminuindo, tinha a estranha sensao de que todos fugiam dele e o deixavam sozinho no mundo. Na nsia de os reter, mudava de
msica. Pior. A instabilidade das melodias pegava-se  assistencia.

Os Justos, sentados no fundo da escadaria,

como a impedir-lhe a retirada, io mexiam um dedo. E a rarefaco do povo era ainda mais opressiva.

Comeava a cair a noite dos lados de Constantim. As ltimas vendeiras tinham partido j. A pipa de vinho, que o P-Tolo tivera  sombra do sobreiro, descia o monte
vazia, aos solavancos

no carro.

Ao fim de duas horas de suores frios, durante as quais o Arlindo puxara pelo harmnio como um galeriano, os Justos ergueram-se e deixaram a passagem livre.

- Bem, vamos andando... - disse o Arlindo, exausto. - Os homens nao querem nada...

-Parece que no...

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Meteram-se os trs a caminho, aliviados duma carga que pesava a vida do Arlindo. S no fundo do monte, quando o Rodrigo olhou para trs,  que viu que os Justos
vinham em cima deles, calados.

-Isto d grande desgraa, eu seja cego -

avisou o Gaspar, transido. - E, se fosse por outra coisa, tinhas-me aqui. Assim, no. L te avm...

Iam j nas inatas do Infantado, quando os

perseguidores cortaram por um atalho e se chegaram.

- Queremos uma palavrinha em particular aqui ao senhor Arlindo...

0 Rodrigo, numa irresistvel solidariedade humana que se tem com qualquer condenado no

momento da expiao, ainda arranjou coragem para refilar:

- Trs para dizerem uma palavra a um

homem s?!

Mas, sem mais rodeios, um dos Justos deitou as mos s abas do casaco do Arlindo, enquanto os outros dois, de pistola na mo, insistiam numa palavrinha muito em
particular quele cavalheiro.
0 Rodrigo e o Gaspar,  vista de tais argumentos, foram andando.

E no dia seguinte, de manh, o Arlindo entrou em Vale de Mendiz numa manta, capado.

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INIMIGAS

Desde o arraial da Senhora da Fraga que a Cacilda e a Sofia se no podiam ver. At ali, muito amigas, sempre agarradas uma  outra, como irms. Mas meteu-se a ciumeira
entre elas, e aquela amizade foi um ar que lhe deu. Fiadas no paleio do Augusto, a prometer um tosto a

uma e cinco vintns  outra, pareciam cadelas ao mesmo osso. No saberem que quem  homem diverte-se, e que em coisas assim o melhor  fazer das tripas corao e
deixar correr! Qual o qu! Puseram-se a dar ouvidos aos vinte anos, e, no e nada, faziam lume mal se encaravam.

Na tal noite da zanga, andavam juntas no

adro, felizes da vida, a comer pras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram

servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que no tinham fome nem sede.

-E uma prenda?

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Que aceitavam, j que estava to daimoso. Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuados, teve tais artes, que s com a quadra que neles vinha encheu as duas
da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas! 0 certo  que, mal o rapaz tirou a Sofia para danar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o

fim do mundo era naquele instante.

Os arraiais da Senhora da Fraga so um

bota-fora a noite inteira, com duas msicas a estrondar, uma de cada lado da capela. Fogo, nem se fala. At de Sanfins se pode ver o cu de Faies, sem um minuto
de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica! Pipas e pipas de vinho debaixo da carvalhada, e do melhor, que parece que todos capricham nisso, tascas de fritos,
mesas

de cavacas e de refrescos, medas de regueifas, carros de melancias, um louvar a Deus. Fartura de tudo para quem tiver conques. De maneira que quem diz: vou ao arraial
da Senhora da Fraga e vai, j se sabe que no arranca de l antes do alvorecer. Por isso, at a Santa estremeceu no altar quando a Cacilda, a todo o pano, que se
ia embora. Perguntava-lhe a ti Constana, abismada:

- Que mosca te mordeu, rapariga?! Tu ests maluca ou qu?!

120

Felizmente que o Augusto valeu quilo, arre-

dondando a fala e convidando-a tambm.

Toda babada por dentro, que no, que no danava. Rogasse outra vez a Sofia. 0 rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se  cana verde que
parecia um p de vento! De madrugada, comiam-se uma  outra.

E valia a pena! As palermas a ador~lo, a quebrar lanas pelo grande adereo, e o ladro de caoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, j os
banhos dele a correr em Favaios com uma de l!

Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peonha. Oh, oh! Nem assim deram o brao a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, se no pior. E mutuamente
a atribu-

rem-se as culpas de o Augusto bater as asas!
0 grande prejuzo! Que valia ele mais do que os outros ? Nada. E a prova disso  que no tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o
Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela sizama no corpo, que mesmo depois de o verem

arrumado e de se arrumarem tambm, continuavam a ferro e fogo.

Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. Bondou de bem! Danadas!

121
Como a Sofia se recebeu primeiro, disse~lhe a Rosa:

-Eu. se fosse a ti, convidava a Cacilda...

Fostes to amigas na mocidadel...

Que a no queria ver nem pintada numa

parede. E logo naquele dia, de mais a mais!

Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como urna ladra! No. Havia ofensas que nem

 hora da morte...

E a Cacilda, quando lhe chegou tambm a

vez, por sinal na mesma semana-o povo dizia at que elas andavam ao desafio -, mal a Pirraas lhe falou na Sofia, credo, mudou de cor e per~ guntou muito a srio
se lhe queriam estragar a

festa. A escndula que tinha da outra ia com

ela para a sepultura.

Com tal gente, bom dia 1  no fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo, que cura meadas e embranquece os cabelos.

Tal e qual. No tardou muito, nove meses

contados, mais coisa menos coisa, tudo se comps a contento de Faies.

Certas como relgios, o Abril a cair, e cada uma com o seu menuio. Mas a Sofia esteve to mal, to doente, custou-lhe tanto o dela, que ningum a julgava. Febres,
acidentes, albuminas, que foi preciso vir o mdico, e mesmo assim

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esteve desenganada. Leite para o filho, viste-o. sequinha como as palhas! 0 infeliz chupava um

pano molhado em gua aucarada, que a Rosa lhe chegava  boca, engolia uma pinga de leite de cabra, cortado, e viva o velho! Mirradinho, de todo.

A Cacilda soube do caso ainda antes de se erguer. Nas terras pequenas, as boas e as ms notcias entram pelas frinchas da parede. E j com outra humanidade na alma,
me de todos os pimpolhos do mundo e solidria com todas as mes amigas ou inimigas, mandou chamar a Rosa e ps-lhe as fontes do peito  disposio. Com uma condio
apenas: que a Sofia o soubesse.  laia de passear o menino, lho levasse l. E ela havia de ver como o pequeno arribava, que tinha leite naqueles seios que chegava
para um regimento. At lhe doam!

Assim foi. A Sofia, a poder de remdios e mais remdios, ia tendo mo na vida. E enquanto ela dormia, desmaiava, ou estava para ali amodorrada, a Rosa era como o
vento: agarrava no garoto e corria a casa da Cacilda a fart-lo.

At que a Sofia arribou. Levantou-se muito fraca, muito amarela, e quis dar de mamar ao

filho. J podia.

123
Mas, quando foi abrir a blusa e ps  mostra as duas bexigas secas, nem o catraio as quis, nem

a Rosa consentiu que lhas metesse na boca.

-Guarda l isso, mulher, que at o podes envenenar! Eu lhe darei de comer. Olha que  fome no morre!

Humilhada, a Sofia comeou a chorar. E ainda mais desespero sentiu, pouco depois, ao ver a

criana espernear nos braos da Rosa, recusar a chupeta e comear num berreiro de atroar os

cus. 0 seu rico filho estava doente. Nem comer queria!

A Rosa  que no atribuiu grande importncia  birra, como lhe chamou. A criana precisava de sair um migalho, de apanhar sol... Ia passe-la.

A Sofia ficou s6, cheia da sua mgoa. Nunca fora fortalhaa, como a Cacilda, mas sempre esperara poder criar um filho, se Deus lho desse. Afinal... E por via disso
o menino tinha de beber  sobreposse leite de cabra, que se calhar lhe fazia mal. Valha a verdade que no estava magro...  Contudo, sempre era criado como os enjeitados.
Que alegria para a Cacilda!

Malucava nisto, quando a Rosa entrou com o rapaz, calado e sonolento.

-Vamos experimentar outra vez?

124

A Rosa respondeu que sim, que ia encher a mamadeira... E nunca mais voltou.

Como o menino no chorava e se lhe ferrou a dormir no colo, a babar-se, a Sofia desconfiou. Ali andava segredo.

No meio da tarde'    cansada, a doente foi-se deitar e pegou no sono. A criana l estava no bero, rosada como um anjo.

Apesar de adormecida, a Sofia continuava

na sua grande labuta. A maternidade incompleta doa-lhe na raiz do instinto. E via no sonho o pequeno mirrar-se de fome, vtima inocente de uma me que o no era.
Ofegante, tentava libertar-se do pesadelo. No conseguia. Cada vez mais sumido, esqueltico, o infeliz acusava-a com os seus grandes olhos negros, que cintilavam
da escurido de umas rbitas fundas como poos.

Num grito de terror, acordou. E deu pela falta do filho.

- Tia Rosa, o menino? - perguntou, aflita. Respondeu-lhe o homem, da cozinha:
- Tenho-o aqui ao colo...     V se dormes. Cresceu-lhe a desconfiana. E no dia seguinte, p ante p, ainda a cair de fraqueza, quando a Rosa foi dar um dos tais
passeios ao garoto, seguiu-a. Da esquina da rua

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viu-a chegar  eira e entregar o mido  Cacilda., que estava sentada ao sol.

Aproximou-se. 0 pequeno parecia um bacorinho no peito da inimiga. E, quando as outras deram conta, estava ela de p, maravilhada, a dizer:

- Olha l se me engasgas o rapaz,  Cacilda!

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SOLIDO

Para ter a mulher farta e mimosa, o Duro batia a montanha de cabo a rabo. Madrugava e chegava a Vila Pouca ao romper do dia.

- Tem milho?
- Tenho. -A como quer por ele? -A catorze.
- Olha a catorze! Vossemecs endoidece-

ram...

- No fomos ns, foi o Governo. Com que se  ho-de pagar as dcimas, se no com o cibo da novidade ?

-Mas  muito dinheiro!
- Nem menos um real.
- No. Tem que me deixar isso mais barato. Pago-lhe a treze.

-Tenha juizo!
- Treze e meio, v 1

127
90@

Agarrava-se ao vendedor como uma carraa. Que lhe havia de tirar qualquer coisinha, pois ento! Assim as almas tivessem paz no cu como no ganhava um vintm se
o levasse por aquele preo. Perdia, mas . .. E,,ao cabo de duas horas, carregava os machos e metia-se a caminho com vinte ou trinta mil ris de ganho.

Chegava a casa pela noite adiante, quando os

ces uivavam que se danavam nas eiras cobertas de palha centeia e de luar, ou o cu se desfazia em gua e a escurido era como breu. A patroa, j deitada.

Descarregava, desaparelhava e pensava os animais, ia  cozinha comer o caldo, e chegava-se ao calor da cama. s vezes, o corpo, mesmo assim quebrado, pedia-lhe uma
tolice. E encostava-se  mulher. Mas raras vezes ela o atendia. Enfastiada, cheia de sono, resmungava que se

arredasse para l, que vinha gelado. Contra a

vontade da carne, dava-lhe razo. E de manh, ainda o sol se espreguiava nos quintos, ala morena, que a vida dum almocreve  vida de judeu errante.

Botava-se a Vilar Seco. -Tem centeio?
- Tenho.

128

-A como quer por el- @

le.

-A dezasseis.
- Olha a dezasseis I Vossemecs no esto bons da cabea...

E s tantas da madrugada a atravessava ele o povo, Guies, com os machos carregados de tal maneira que pareciam paves armados.

Mas  custa de noitadas, de molhadelas, de neves, de fome e sede pelas serras alm, a descer da Terra Fria o po da Ribeira, o Duro tinha a casa testa do bom e
do melhor, e a dona dentro dela como um bicho da seda no casulo. A Isaura fora sempre o seu fraco. Desde muito novo que a trazia na ideia. 0 diabo era ser meia senhora
e andarem todos atrs dela, mais a mim, mais a mim. Por isso, sempre cuidou que no levava nada de ali. E, quando lhe bateu  porta e viu que o atendia, jurou de
a tratar sempre como uma princesa.

-Aquilo no  parelha para ti, rapaz! -

dissera-lhe a Gorda, grande amiga da Isaura, na

altura em que, com grandes rodeios, tentava apalpar o terreno.

Fez que no entendeu. Pois sim. A Gorda  que sabia o que lhe convinha! No. Pelo menos atirava o barro  parede...       E, muito embora em coisas de amor fosse
sempre acanhado,

129
no S. Joo fez a barba, aperaltou-se e, na roda, assim que a rapariga mudou de par e lhe calhou, fez das tripas corao. Se o queria. E no  que ela diz que sim?!
Foi o dia mais feliz da sua vida. Da a uns meses casavam, e o Duro, para ter aquela prenda tratada como merecia, suava as estopinhas.

S descansava aos domingos. E mesmo assim ia  missa  Senhora da Amoreira ao romper de alva, para se encontrar com os da Arc, da Garganta e de Paredes, terras
de muito cereal. A brincar, a brincar, matava dois coelhos duma cajadada: ouvia o padre Serdio e apalavrava meia dzia de alqueires.

A Isaura, essa, mais fidalga, erguia-se tarde, e s onze  que atravessava o povo em direco  igreja, de bom cordo ao peito, solene como

uma santa no andor. E o Duro, enquanto tratava dos machos ou dava um ponto na albarda, regalava-se todo de a ver passar assim, muito azada, bonita, a meter inveja
ao sol.

-Tenho gosto nela, para que hei-de negar? -confidenciava de vez em quando ao Luciano, almocreve tambm.

- s um babado!
- Ela merece-o...
- Tu l sabes. Em todo o caso... As mulheres so muito vrias! A gente cuida uma coisa...

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0 Duro protestava. Um homem no se casava para andar sempre com uma aguilhada na mo, pica que pica, desconfiado. Que diabo! Nem era justo medir tudo pela mesma
rasa. Claro, no se respeitando um ao outro... Agora se os feitios calhavam, no havia nada mais bonito. Um desgraado passar o dia inteiro como um ladro pelas
serras, farto de caminhos e de seixos, e chegar  noite a sua casa...

-Casa! Casa... Sabe-se l o que  melhor... Como uma aragem imperceptvel, a dvida passou pelo Duro sem o tocar. E porque a hostilidade das penedias apertava o
corpo de encontro  alma, numa cautela instintiva, os companheiros fecharam-se na sua concha e entraram silenciosos em Folhadela.

- Tem milho? No regresso, o Duro ao chegar  cama desejou mais fortemente a mulher.  fome da carne juntara-se um apetite novo, uma necessidade infantil de refgio
e de proteco. Mas, quando de natureza em fogo se chegou a ela, bateu em gelo. Dormisse, que tinha de se erguer cedo.

Um migalho ressentido, adormeceu. E de madrugada, ao acordar, sentia-se rodo por uma inquietao que at ali nunca conhecera.

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Pela serra a cabo, sem poder aguentar mais aquele sofrimento, renovou a conversa do dia atrs. E o Luciano, como na vspera, atirou lealmente  incompreenso escorregadia
dos frages a semente teimosa da insinuao.

-  melhor a gente no falar nisso. Mulheres e mulas...

Iam buscar centeio a Pinho Celo, e tiveram de dormir em Alifaf. 0 Duro no era homem de muito vinho. Contudo,  ceia, para abafar a

amargura que o afligia por dentro, carregou-lhe.
0 Luciano, esse nem se fala. E s duas por trs estavam ambos como carros.

Deitaram-se tarde, na mesma loja onde os

machos rilhavam gto. E da negrura da borracheira, numa purificao universal, que um proclamava heroicamente e o outro covardemente aceitava, saiu a triste claridade
da desgraa do Duro. Era como. Entre recriminaes, pragas e vmitos, o Luciano foi despejando o saco.

Punha-lhos  o Carlos, evidentemente. Pois se j em solteira o metia dentro do quarto! 0 que , puta como   uma rata, Jesus, honradez maior no havia!...

Apesar   de o atravessarem de lado a lado, o Duro sentia mal as facadas do Luciano. 0 vinho, como uma almofada caridosa, amortecia a dor

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dos golpes. Em carne viva e anestesiado ao mesmo tempo, lcido e entorpecido, tudo se

passava como se um trgico pesadelo o atormentasse na aparente realidade de um sonho. 0 certo e o incerto ofereciam-se-lhe com a mesma desfaatez movedia. E tentava
soltar-se das malhas invisveis que o prendiam, na nsia de cindir de uma vez os campos da verdade e da mentira.
0 lcool  que no deixava. Quanto mais ele pressentia a fundura das palavras do companheiro, mais aliciante era a volpia da incredulidade a correr-lhe nas veias.
E, sem poder tirar a limpo o exacto sentido do que ouvia, numa paralisia da vontade, adormeceu.

De manh sabia-lhe a vida a podre, a um gosto repugnante de fel. Contra o costume, ergueu os machos a pontaps. E, sem dizer urna palavra ao colega, que ressonava
ainda, tocou vazio para Guies.

Vinha cego, cheio dum dio calado, espesso, que o tomava todo, desde a cabea aos ps. Nem as cinco lguas do caminho rarefizeram aquilo. Entrou em casa a estoirar
de desespero, tal e qual sair de Alifafe. E, quando a mulher ia a abrir a boca, espantada da sua presena sbita e mal encarada, sangrou-a  navalha como quem sangra
um porco.

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Penitenciria. Os trs juzes da Vila, muito formalizados, muito srios, deram a sentena como se fizessem uma justia mais humana e

mais pura que a do Duro. E o almocreve, em p., recebeu-a sem pestanejar. Que mais lhe fazia viver na cadeia ou em Guies, solto ou preso, s grades ou pelas serras
a cabo ? Tanger machos, calcorrear caminhos, cozer o

corpo ao sol e s geadas, tem sentido se nos

espera ao lume ou na cama quente a presena de algum.

E, numa tarde de invernia, l se foi cumprir a pena.

Guies, na pessoa do Luciano, despediu-se dele melancolicamente:

- Se eu soubesse que isto dava uma desgraa assim, nem te dizia nada...

Mas acrescentou, num dilema pessoal, de homem honrado:

-Que tambm, para falar francamente... Olha, eu c fazia o mesmo!

0 Duro ouvia o amigo com a ateno distante.
0 frio que sentia na alma tirava a significao a tudo.

E Guies no insistiu. Vinte anos depois, s porque em frente da casa onde se dera o crime, na parede do quintal, havia umas alminhas,  que

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os mais velhos recordavam o almocreve., a explicar a pedra aos filhos.

Um dia, porm, o Duro regressou  terra. Muito mudado no aspecto e no feitio, falou a todos, perguntou por tudo, num desejo diligente de fraternidade e de recuperao.
E Guies olhou-o com desconfiana. Qu? Regressara? Ento no morrera por l?!

Tomado apenas legenda, e legenda em vias de esquecimento, ningum o desejava novamente palpvel na sombra que pouco a pouco se esbatia.

Assim mesmo, fora do tempo, sobrevivente incmodo de uma catstrofe que o destrura, abriu a casa, deixou entrar o sol pelas janelas, comprou um macho e retomou
a vida. Os prprios troncos cortados florescem, s vezes.

-Tem milho?
- Tenho. -A como pede?
- A trinta.
- Valha-o Nossa Senhora. A trinta! Olhe que eu no o vou roubar! Ande l, deixe-mo a vinte e seis. 0 po est a descer... Ainda ontem o paguei em Sangunhedo a vinte
e cinco e meio...

Seguia as passadas do velho Duro, sem o ser. E no h falncia maior do que imitar o passado,

135
mesmo que seja nosso. No lutava por nada,

e o seu esforo soava falso. Alm disso, como o

Luciano,, cheio de reumatismo, j no negociava, e nenhu m dos novos queria emparceirar com ele, quando entrava num povo, desacompanhado, ape~ nas com o macho atrs
e o espantalho do crime adiante, as portas fechavam-se-lhe na cara. Ningum o atendia. Voltava a Guies de mos a abanar.

Na Consoada, sem poder aguentar mais o

frio daquela maldio humana, falou em casa-

mento  Rosria, uma pobre desgraada que se

entregava ao primeiro que a requeria. Estava a

entrar nos quarenta e cinco. No era velho ainda. Se ela quisesse...

- Para voc me fazer o que fez  outra! Calou-se. Responder, para qu? E foi para casa encher sozinho as quatro paredes da sua solido.

Na manh seguinte, dia de Natal, desesperado, meteu-se pela serra acima. Para onde ia ? Sabia l! Que o levasse o macho,  ventura.

0 macho, num chouto demorado de agonia, levou-o pela montanha alm at Alifafe.

Pelas terras onde passava, Cristo nascera no

corao de todos. Cepos a arder, danas, foguetes., e um ar lavado e festivo no corpo e na

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alma de cada um. Mas viam-no, e mudavam de semblante.

Passava das onze da noite quando se apeou  porta da estalagem.

E na trave da loja onde o Luciano, bbado, lhe secara na alma a razo de viver, com a corda da carga, enforcou-se.

137
T-

A LADAINHA

Mal o pessegueiro da horta do Manuel Rosa se cobriu de flores e a sineta da capela se derreteu a chamar, jurjais despegou dos campos e foi responder s rogaes
do padre Loureno.

- Sancta Dei Genitrix...
- Ora pro nobis...
- Sancta Vrgo Vrginum...
- Ora pro nobis...

Era a ladainha da primavera. A voz do abade, grossa, sonora, sozinha, sala do caminho, metia-se s matas, enrodilhava-se na rama dos pinheiros, passava, e ia perder-se
ao longe numa encosta de centeio. E atrs dela, torrencial, a cilindrar o que resistira  passagem da primeira levada, a do povo, feita de quantas bocas de caldo
havia no lugar.

- Santa Maria Magdalna...
- Ora pro nobis...

139
yI_

Lenta, a mole de gente arrastava-se pela serra acima a esmoer a corte celestial. E deixava atrs de si uma densa atmosfera de som, de paz, de coisa purificada.

- Sancta Agatha  ...
- Ora pro nobis ...

Os montes era um gosto v-los. Cobertos de urze, roxos, tinham perdido a fora bruta que o Janeiro lhes dera. 0 cu, sem nuvens, varrido, cobria-os como um tecto
de cetim. E os ribeiros, que os sulcavam de frescura, pareciam veias fecundas dum grande corpo deitado.

- Saneta Lucia ...
- Ora pro nobis ...

Ao ritmo cadenciado de cada invocao, o cor-

tejo ia seguindo. E a atrasar um passo aqui e alm, no meio dele, alheios quele rol de bemaventurados que gozavam no paraso, tolinhos de

amor um pelo outro, cegos, o filho da Etelvina, o Carlos, e a filha do Zebedeu, a Rita.

- Sancta Caecilia...
- Ora pro nobis...

0 rio de povo, como um Doiro de som, continuava a subir. Depois do moinho dos Seixos, a mata da Lamarosa; passada a boua do Infntado, os amieiros da Fonte Fria.

- Sancta Catharina...
- Ora pro nobis...

As primeiras casas de Arc, cobertas de colmo, surgiram subitamente na volta do talefe.

- Sancta Anastasia...
- Ora pro nobis...

0 badalo frentico que os reunira calara-se h muito. Mas acordava de novo, agora a ladrar alarmado no campanrio da terra visitada. A avalanche entrava na povoao.

- Per sanctam ressurrectionem tuam...
- Libera nos, Domine...

A voz do padre mudou de tom.

- Ut fructus terrae dare et conservare

digneris...

140

141
Qualquer coisa que adormecera, embalada pela melopeia benta, estremeceu. Foi preciso o coro

subir dois pontos para a harmonia voltar.

- Te rogamus, audi nos...

A ladainha chegava ao fim. A sineta parecia doida. Aos que vinham, juntavam-se os que esperavam. E o mar humano invadiu a igreja.

-Agnus Dei, qui toffis peccata mundi...
- Miserere nobis...

Seguiu-se um salmo de David. E ao cabo dele, e de algumas oraes complementares, no

momento em que todos se dispunham a voltar pela serra abaixo  procura de ptegas, quem 

que tinha visto o filho da Etelvina, o Carlos, e a filha de Zebedeu, a Rita, que o Amarante encontrara dias antes no caminho de Alcaria, uns fedelhos, ele ainda
a pintar, a sair da casca, ela com dois ovinhos no lugar dos seios, tontos, tontos, que at dava vontade de rir?

Ningum. Por alturas de Santa Ins, reparara neles o Lapadas. Depois...

142

Depois, muito sorrateiros, esgueiraram-se por detrs duma fraga, e quando foram a dar conta estavam entre duas giestas floridas, to chegados, to alheados do mundo,
que s mesmo um milagre...

Descobriu-os o Jaime, por acaso. Ela chorava, ele chorava, mas que se lhe havia de fazer ?

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0 VINHO

Era no Agosto,  tardinha. 0 Abel descia aos bordos pelos montes da Borralheda abaixo, a falar sozinho:

-Sempre vais muito bbado, Abel! Muito bbado vais tu! Metes-te nele, bote l mais um, ti Margarida, bote l mais um, pronto... Agora pareces um milhafre a peneirar.
E o pior  o

resto: chegas a casa e j sabes: ningum a atura. "Olha em que estado vem este excomungado! Dinheiro para comprar os precisos, no h; mas para encher os cornos
de vinho, que no falte!" H?  bonito, no  ? Claro, ds-lhe a resposta que merece:

"Cala-me essa boca, que j nem te enxergo bem, mulher! Deixa-te de cantigas, se no queres saber o gosto que o fado tem! Se bebo, bem haja eu.

Quanto mais, que  que eu bebi?! Dois quartilhos. Olha a grande coisa! ... " Fica danada, e

continua a ladrar: "Se vs que no ests farto, eu

vou-te buscar mais  venda! ... "

145

to
Riu-se. -Que me dizes  piada, Abel? Que me

dizes ? Aquilo  que  uma bisca!

Parou. Encostou-se a um pinheiro e abriu a braguilha. Ficou uns segundos calado, feliz, a sentir-se aliviado. De repente, alarmou-se:

- Ests-te a mijar, Abel! Ests-te a mijar pelas pernas abaixo.

Comps-se. -Assim, sim! Ao som da urina a cair no cho, comeou a cantar:

Caninha verde,  minha verde caninha...

Passou gente.
- Isso  que  boa disposio!
- Regular. Emprenhei esta noite a patroa... Riu-se outra vez. Fechou a braguilha e con-

tinuou a cantar:

 de encanar, Encanei para o teu peito, Quem me h-de de l tirar ?...

Arrastado pelo ritmo da prpria voz, ps-se a danar. Mas, apenas deu duas voltas, enrodilharam-se-lhe as pernas e estatelou-se.

-Eu bem te digo que vais muito bbado! No acreditas...

Tentou levantar-se. -Qu?! No s cgpaz?! Essa agora! Coou a cabea, num exame de conscincia. - o vinho!  o ladro do vinho. No tenhas dvidas.

Penitente, deu a mo  palmatria. -Foi sempre o teu fraco, a pinguita! Coou de novo a cabea.
- Sabe-te bem... E afogas as mgoas... Ela  que no vai em cantigas, e a estas horas j te rezou

o responso. Por isso, trata de te erguer.

Nada.
- Ai - ai, ai - ai! Ests a desconversar! Num pm*co inconformado, apelou para os

seus brios.

-Ento que raio de coragem  essa, cama-

rada? Se ds parte de fraco, deixas-me ficar mal!

Insuflado de energia, iniciou terceira tentativa:
- Upa! Arriba, burro velho, que  mar. Upa!

Estava j quase em p, mas no se susteve

e caiu. Zangou-se: _  Raios te partam e s pernas que tens! Podes ir  merda e mais elas!

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147
Estendeu-se ao comprido no cho e deu um suspiro fundo, de bem-estar. Mas repreendeu-se logo.

- Sabia-te bem a coisa, no?! Isso sei eu! E depois ? E l em casa, a senhora D. Maria?

Apesar da advertncia, deixou-se ficar de barriga para o ar, a olhar o cu. Dos lados da Delegada vinha nascendo a lua cheia. Avivou a ateno:

- j viste, Abel ? j viste a lua? Ali, pedao de asno! Mesmo em frente. Que grande lua! E corada, a figurona! At parece que tambm lhe cascou...

Contente da chalaa, e de olhos muito arregalados, esqueceu-se do tempo, a namorar aquela congesto suspensa, espapaado na doce almofada que era o caminho duro,
ainda quente da torreira do dia. De repente, perguntou:

- Mas isto  vida, companheiro? Diz l, francamente, se isto  vida?! No ? Ento, ala, toca a andar...

Depois dum grande esforo, conseguiu sentar-se.
- Ora vs?! A coisa vai. 0 que  preciso  calma.

Apesar das boas palavras da razo, o corpo no foi mais alm.

- o que eu digo: ests bbado! Queres, mas no podes.

Abanou a cabea, desiludido.

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- Sempre cuidei que eras mais valente... Compadecido daquela misria, numa voz ntima, terna, de quem fala a um amigo, procurou tirar alento da fora da prpria
realidade.

- Ouve. Bebeste, bebeste, pronto: deu-te na fraq ueza. Est certo. Mas a verdade  que tens de voltar para casa. Por isso, o remdio agora  fazer das tripas corao...

Nem se mexeu.
- Mau! Temos o caldo entornado! Assim, no! A ameaa de nada valeu. A lassido que sentia era cada vez maior. E armou-se de pacincia:

-V l uma cigarrada, a ver se animas. Arranjas-me cada sarilho! No tens juizo... Depois d este resultado.

Desenterrou do bolso do colete uma pirisca, acendeu-a e lanou para longe o fsforo de cera ainda a arder.

Com o peito cheio de fumo, consolado, voltou  carga:

- A srio, a srio, que no es capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?

0 fsforo que atirara fora pegou fogo ao

panasco seco do monte. Uma brisa ligeira que se

levantara avivou a chama e p-la a caminhar.

Conscienciosamente, alarmou-se: -Vs? Vs o que fizeste? Agora no trates

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de apagar aquilo! Se te parecer, deixa queimar tudo!...

Disse, mas continuou como estava, a olhar uma toua de carqueja que comeava a fumegar. Quando a labareda se abriu, excitou-se:

-  Abel!  meu badana! Levanta-te! Reage, alma do diabo!

Pois sim. Ficou no mesmo stio, incapaz dum gesto.

Teve um rebate de sincera contrio:
- No vales a ponta dum corno! Andas para a a presumir, e no h pandilha maior nas redondezas. Com meia canada de tinto, ests como hs-de ir!

0 incndio, tocado pelo vento que crescia, lavrava j pelo monte a cabo.

-Olha que arde tudo, Abel. Se no lhe acodes,  um ar que lhe d! A secura  muita... E s tu o m*co causador i

A lua, agora, vista atravs da borracheira e da sebe de lume, era uma brasa redonda. 0 Abel  que no se deixou corromper pela sugesto da imagem.

- Foste tu, no cuides l! A lua est assim vermelha, mas no pega fogo ao mundo...

As labaredas no tinham parana. Sfregas, corriam  porfia sobre o palhio. Depois, Iam-

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bido o cho, chegavam-se  casca dos pinheiros, agarravam-se a ela e trepavam pelos troncos acima como cobras. No alto, na rama, era duma bocada s.

0 Abel assistia impotente quela fria destruidora. E, embora os olhos j lhe doessem e sen-

tisse uma parte de si responsvel perante no sabia que justia, admirou o espectculo.

-L que  bonito, , sim senhor. Linda coisa. Um arraial e pras!

Quebrou o enlevo para limpar a alma de qualquer conivncia.

-  bonito, mas... Escusas de querer encobrir. Se algum me perguntar, j sabes, digo a verdade.

Passou um coelho espavorido.
- Viste um coelho?! Aquilo  que levava uma

pressa! Ia com o rabo quente!...

0 incndio cada vez era maior. Num tojal, as lambras pareciam cabras s turras. Anoitecera, e,  medida que se toldava a luz, avivava-se mais o brasido. Os olhos
do borracho, que o vinho e o claro cegavam, fechavam-se numa teima de cortinas insubmissas. Contudo, mesmo nessa escurido dos sentidos, o coitado lutava ainda:

-  criatura de Deus, lembra-te de que tens

responsabilidades...  Que s um pai de famlia... Que contas hs-de dar em casa, amanh?

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Os montes da Borralheda estavam agora transformados numa fornalha. A lua cheia, no

cu, tinha uma cara larga, de abbora iluminada por dentro.

Aos ouvidos do bbado comearam a chegar, indistintos, sons tresmalhados. Prestou ateno. Eram gritos de gente que vinha acudir ao fogo. Ele  que infelizmente
no podia fazer nada, por mais que quisesse...

Nisto, o estalo seco de uma corcdea a arder foi como um aguilho que lhe espe- tassem. Sem conscincia sequer do que fazia, num salto de mola, ps-se em p.

Esteve assim uns segundos, cego., ptreo, macio, no limbo, opaco do ser e do no ser. Por fim, num relmpago de libertao, abriu os

olhos. 0 mar vermelho submergiu-o ento como

uma vaga. Deslumbrado, caiu redondo no cho.

Um sono fundo, pesado, comeou a quebr-lo todo. E daquela doura que o invadia, uma clula s, fiel  dignidade da espcie, refilou ainda:

- Ao que chega um homem!  preciso no ter vergonha na cara...  Ficar para aqui, num

ermo destes, a dormir ao relento como um animal! E no cuides que  l por causa dela que me incomodo. Que se lixe!  por ti, desgraado...

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0 LUGAR DE SACRISTO

No estava no propsito do prior desgraar o rapaz. Pelo contrrio. Quando o chamou, e com grande argumentao o conveliceu a ficar a substituir o pai, cuidava at
que lhe fazia um

especial favor, Homem prtico, embora tivesse por oficio tratar de coisas do cu, o seu forte eram assuntos c deste mundo. Negociar em min' *

erio, granjear bons lameiros, criar gado. E dizia-lhe:

-Bem vs, numa terra pequena, onde no h ganhos, um vintm que seja faz sempre arranjo. Ora, tu sabes muito bem que o lugar de sacristo  uma pingadeira. So as
missas, os casamentos, os baptizados...

-E os enterros...
- Evidentemente! Mas que tem l isso? -No sei, no gosto.
-  criatura de Deus, olha que tudo  preciso neste mundo. Se no morrssemos, comamo-nos aqui uns aos outros.

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- Deix-lo! Antes quero ganh-lo  enxada. -No ds respostas  toa! Pensa primeiro. -Est pensado. Abrir covas, no... -E tu a dar-lhe! No plantas bacelo ? No
saibras ?

-Pois saibro.

Ento ?  muito diferente. Parece-te. Tudo  terra!
0 Felisberto, ouvia aquelas heresias, a olhar o padre com desconfiana.'

- Ests admirado?
- Se quer que lhe fale franco...
- Eu compreendo. Mas no h motivo para espantos. 0 corpo, quando a alma o deixa,  um

monte de estrume a apodrecer.

- Ser. Eu  que no tenho feitio... -Qual no tens! Acostumas-te, que  um

regalo. Depois j nem reparas.

- A modos que at o estmago se me revira s com a ideia...

- Mau! Que diabo de homem s tu?! Cabeudo, o mal era o prior pensar numa

coisa. Enquanto no levasse a sua avante, no sossegava. E tanto teimou, tantas voltas lhe deu, que o pobre do Felisberto acabou por se conformar.

- Pronto, seja. Bem me custa...

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-E no te arrependes, vers. Eu tinha outros que queriam o lugar. Bastava acenar-lhes. Mas prefiro que fiques tu...

- Muito obrigado.
- Portanto, estamos entendidos. Posso contar ? _ Pode.

Naquela aceitao resignada, via o padre a luz do bom senso a reluzir no esprito do rapaz. Quando, na verdade, ela significava apenas uma renncia impotente a felicidades
futuras que o instinto do Felisberto pressentia.

- Sempre te resolveste? - quis saber, logo a seguir, a Filomena Velha, a beata mais categorizada da aldeia, que de longe vigiava a cnversa.

- Resolvi. -Custou! Tolo, que ias atirando com a sorte pela porta fora!

- Se calhar atirei mas foi com outra coisa... -Que coisa?
- Sei l... Era um pressgio vago, um pavor difuso que o afligia. A causa verdadeira de tal medo, no a sabia dizer. Quando na conversa com o prior insistia na repugnncia
que sentia pelo servio no cemitrio, agarrava-se a uma tbua

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de salvao. A realidade da sua recusa tinha razes mais fundas.

-Acredita que fizeste bem! -teimava a Filomena.

-No sei se fiz bem, se fiz mal.
- Quem anda no servio de Deus faz sempre bem.

- Veremos. Tempos depois, ainda o sacristo mantinha no esprito e nas palavras a mesma incerteza quanto  excelncia do emprego. No fim de uma semana de misses,
quando a santanria se babava de felicidade, e queria logicamente compartilhar a sua alegria com o Felisberto, ouviu esta enormidade:

-No dia em que me meti nisto, se tenho quebrado uma perna...

-Eu benzo-me! Pareces maluco. Olha que os tempos vo ruins!

-s vezes sabe melhor uma malga de caldo comida com gosto, do que...

- o que te parece. Avisado pela devota, o prior acudiu ao desnimo do rapaz. Tambm a ele lhe custara engrenar naquela vida de incensos, velas, pecados e agonias,
que tinham sempre um desfecho tumular. Mas fez-se forte, que remdio, e agora nem dava conta.

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Grato s palavras de estmulo que ouvia, o Felisberto comeou tambm a lutar. E com o andar do tempo j lhe no metiam tanta aflio as missas interminveis, a gritaria
dos midos~ ao p da pia de gua benta e as caveiras que ia desenterrando sempre que abria uma campa nova.

E quase se esquecera da relutncia com que aceitara o lugar, quando teve, finalmente, a chave dos seus misteriosos e aparentemente absurdos pressentimentos.

Morrera sempre pela Deolinda. Desde garoto que sentia um gosto particular ao v-Ia passar, muito ruiva e muito espevitada. Ambos da mesma criao, sem saber como,
a imagem da rapariga foi-o acompanhando no crescimento. E, naturalmente, acabou por integr-la na sua prpria realidade. Sem nunca sequer lho dar a demonstrar, sempre
que olhava o futuro via-se na companhia dela. Por isso, uma vez que ia ganhando o suficiente e podia pensar em arrumar-se, na primeira oportunidade que teve, abru-lhe
o corao.

Encontrou-a por acaso no caminho da igreja. Toda desenganada, vinha de levar o almoo ao pai, que andava a lavrar no Borrajo. Depois de lhe falar do tempo e das
sementeiras, habilidosamente foi encarreirando a conversa para o ponto que lhe convinha.

157
'V@

A princpio, a cachopa fez-se desentendida. Mas apenas ele, claramente, lhe declarou que a pretendia, deu-lhe um no redondo.

Como um animal pacfico que recebesse uma chicotada, ficou petrificado de espanto e de pavor. Sem ela, a sua vida perdia todo o sentido. Contudo, passado o momento
de dolorosa surpresa, sem despeito, humanamente, aceitou o desencontro amoroso. Agora quando a moa lhe explicou o motivo por que nunca o quereria,  que lhe caiu
de todo a alma aos ps.

-No. 0 homem que me levar, no me h-de abrir a cova, se Deus quiser.

Ah, que bem lho dizia o corao! Burro, que se deixara perder!

Passou a noite em branco, a cismar na resposta da rapariga. E se abandonasse o lugar? Se nunca mais...   Mas no. 0 mal j no tinha remdio. Nem ele seria capaz
de lhe falar outra vez.

No dia seguinte, a auxiliar o prior a paramentar-se, deu-lhe tal repelo na alva, que o bom homem perguntou, entre duas oraes:

-Tu que tens?
- Nada. E cada vez mais triste, o Felisberto, continuou a sua vida de sacristo. Sempre soturno, foi

ele que ajudou a casar a Deolinda e a tomar-lhe os filhos cristos. Com a sua paixo recalcada, tocou-lhe a repique todas as vezes que toi preciso.

0 padre s dizia: -No domingo temos o baptizado de mais um criano da Deolinda.

-A que horas? -Depois da missa. E, acabada a celebrao, l estava ele a puxar  corda do sino.

-Porque no casas tambm? - perguntou-lhe um dia o prior, deppis de prender com a estola a mo do Ramiro, o ltimo solteiro da gerao do Felisberto.

- Agora! -Ento, que idade tens?
- Sei l! A idade no  que faz.
0 padre no compreendeu, mas no quis aprofundar. A sua prpria castrao solidarizava-se mais facilmente com um Felisberto mutilado e solitrio. Contudo, passados
anos, j quando o vento do outono os abanava, gemeu: _  Envelhecemos para aqui ambos como dois infelizes...

0 sacristo encolheu os ombros, resignado.
- Calhou assim...

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E nunca o prior soube se a resposta do Felisberto era uma censura velada, nem o Felisberto

se as palavras do prior eram um desabafo de alma.

Evidente, s a velhice que os mirrava, cada vez mais enrugada e branca. 0 padre, trpego, subia com dificuldade os degraus do altar, e quase que adormecia a ler
o missal. Quanto ao Felisberto, esse tinha uma ronceira no peito que se

ouvia do fundo da igreja.

- Eles no perdoam... - queixava-se o prior, cheio de reumatismo. - j c cantam setenta e trs.

Apesar de mais novo, o Felisberto parecia andar nos oitenta. Tais eram os estragos da doena e da solido!

-E tu, quantos? -Perdi-lhes a conta. Desde que a Deolinda o desprezara, o tempo para ele deixara de ter medida. Ou era uma

eternidade baa, ou aquele segundo ntido em,

que ela lhe dissera que no. E a prpria bronquite como que j fazia parte dessa monotonia sem quebras.

-Vai ao mdico, homem! Trata disso! -

teimava o prior, agarrado  vida, apesar dos achaques.

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-  crnico. No vale a pena. E o triste, acompanhado da gataria do peito, ia arrastando como podia o seu latim de coadjutor. s vezes os acessos de tosse quase
que o sufocavam. Mas l continuava a mudar o missal

e a chegar as galhetas, sem o amparo sequer dum corao condodo. No ramerro da igreja, a gosma acabou por j nem causar impresso aos fiis.

-Temos um enterro amanh. -De quem ?
- Da Deolinda. Teve um ataque h bocadinho, chamaram-me  pressa para lhe dar a

extrema-uno e quando l cheguei estava morta.  preciso tocar a sinais.

Ficou pensativo, mas o prior nem deu conta. Saiu da sacristia, foi  torre anunciar a desgraa, e nesse mesmo dia,  tardinha, tratou de abrir a cova da que no
quisera ser sua mulher por essa razo.

Comeou a cavar sem mimo, aflito por dentro e muito infeliz. Iam saindo ossos, farrapos, tbuas -o esplio habitual dos hspedes passados. Mas nem reparava. S
os braos  que trabalhavam. A sua ateno estava ausente daquelas misrias. Ou se alheava para atender a um

apelo insistente da memria, ou se concentrava

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no alvoroo do corao, a bater descompassado dentro do peito.

Um suor frio, como nunca sentira, comeou a humedec-lo todo. Gotejante a princpio, alargava-se numa inundao. Pesadas, as ferramentas pareciam de chumbo. Contudo,
continuava a manej-las, numa espcie de automatismo, como uma mquina em movimento que por si s no pudesse parar.

J fundo, quando a campa lhe dava pelo pescoo, o esvaimento aumentou. Um garrote invisvel apertava-lhe a vida.

Pousou a p e encostou-se  trincheira.
- Estou pronto.
0 lusco-fusco embainhava de tristeza macia os quatro ciprestes que guardavam os cantos do cemitrio. Nos buxos alinhados havia uma paz cansada, de sono.

- Acabou-se o fadrio... Num adeus quase indiferente, rolou a cabea  superfcie do mundo, como um roberto que no tivesse corpo.

-Cruzes e mais cruzes... Valeu a pena!... Depois, sem foras para sair do buraco, aninhou-se nele o melhor que pde.

- Esta  para mim... -murmurou. -A dela que lha faa quem quiser. Escusava de ter medo, afinal...

JUSTIA

Por mais ordeiro que um povo seja, sempre h coisas.  uma asneira que se diz, um marco

que o arado arranca, uma cabra lambisqueira que salta  vinha de algum, duas mas que uma

criana rouba. Mas tudo isso no vale nada. As mulheres engaleiam-se, o falatrio no tanque anima-se, discute-se nas cavas, e acaba tudo em guas de bacalhau. No
tempo do Leonardo, porm, Deus nos livrasse! Aquele cobardola s sabia dizer:

-Embargo! Ou fazes o que eu digo, ou

vou  Vila e enrolo-te em meia folha de papel selado.

- Se tem assim tanta razo, salte! Salte para aqui, e tiram-se as teimas de homem para homem. Olha l no saltasse! Metia o rabo entre as pernas, e tribunal.

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Ora, o que a justia quer  comer. Certo e sabido: vai-se ter com o Dr. Valrio a Mura, e  logo:

- Voc est cheio de razo, alma de Deus! Ponha a questo, que no h ningum que lha perca. Se quiser, passe-me uma procurao, deixe trezentos mil ris para preparos,
e o resto

 comigo.

Um cu aberto. At parece que a gente j est a ouvir o juiz. Mas depois  que so elas! Comea um moedoiro, de dinheiro, que no h bolsa que chegue. 0 advogado
s diz:

-Ento agora, que isto vai to bem enca-

minhado,  que voc se quer compor?!

E cantem para aqui mais cinco notas! 0 pior  que da a um ms, zs: uma cartnha. "Senhor Fulano,  favor comparecer no meu escritrio*. Desce a gente de escantilho
pela serra abaixo, numas nsias, a cuidar mil coisas. E o que h-de ser? "Tenha, pacincia, isto no anda sem a

mola real ... "

At que chega o dia da audincia. A, ento,  como quem quer livrar um filho. Presente a este, presente quele, tia Preciosa, pelo amor de Deus, diga a verdade
e beba mais uma pinga. E para nada, afinal de contas, porque o outro advogado, que  um bandalho da mesma raa,

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embrulha tudo. "Ora explique-me l isso bem explicado! No minta ... " A gente, quando se

senta naquelas cadeiras, fica logo como h-de ir. Fazem-nos falar, apertam, apertam, e quem  que no cai? Tiram de ns o que eles querem. "Diga. Diga! Ora assim,
sim! V como  tudo ao contrrio do que pensava?!" S visto! Ao fim, sai uma sentena que no  carne nem peixe, uma pessoa fica borrada, empenhada at s orelhas,
e a dever favores at s pedras da rua.

Mas o Leonardo queria l saber! 0 tribunal, para ele, era como a igreja para as beatas. Tivesse razo ou no tivesse. Sentiam-lhe dinheiro no bolso, claro, venha
a ns... Todos mais a mim, mais a mim. E o lorpa a cuidar que lhe davam tantos amns por causa dos seus belos predicados! Com que biscas! Mas, como quem o tem 
que o troca, ora viva o nosso amigo, o que  que o traz por c, s suas ordens, mande! E o filho de quem o pariu, de costas quentes, trazia o povo numa apertadinha.

- Ou esbarrondas a parede, ou ainda hoje te vou fazer a cama!

- Farto seja voc de tribunais nas profundas dos infernos! No tem olhos nessa cara? No v que isto  meu, seu ladro ?!

165


A coitada da Maria Ambrsia, de raiva, at espumava, e o caso no era para menos. Ter a

gente uma coisa sua, e de repente aparecer-nos um larinhoto e lev-la de mo beijada!

-Lembre-se ao menos destas crianas, que ficam desgraadas...

Qual o qu! Sentimentos no eram com ele.
- Sejam ento muito boas testemunhas... E pronto, comeava o calvrio. Coisas de fazer tremer a passarinha. Numa ocasio processou o Garrido s porque lhe atravessava
uma leira quando ia namorar! 0 pai da Belmira no queria o casamento. Aqui-del-rei que matava o rapaz se o encontrasse a desencaminhar-lhe a filha. Que remdio tinha
o coitado seno cortar-lhe as voltas e fazer-lhe o ninho atrs da orelha! Ia ao redor da casa, metia-se no

meio do milho, e era um regalo. Pois o badana do Leonardo deu com aquele arranjo em pantanas, e por um triz que no metia o pobre do desgraado na cadeia.

-  homem do Senhor, tu parece que no tiveste vinte anos! - clamava o Pinto, indignado, a lembrar-se com saudades dos tempos da mocidade.

- Quem quer caina, vai para os baldios. Naquilo que  meu, no!

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- Estragou-te alguma coisa, porventura ?
- No quero c saber. Sevandejava-me a propriedade, e no  pouco! Fica o aviso feito:

a mim, quem me pisar o risco, vai malhar com os

ossos no chilindr.

Um castanheiro  borda da extrema, que pingasse para o lado dele, era uma carga de trabalhos. Mais valia atir-lo abaixo. Os marcos, ento, andavam sempre numa fona!

Nem j ningum queria terras ao p das dele. Os donos punham-nas  venda, os compradores chegavam-se, mas desistiam.

-  um bom bocado, realmente, d aqui um

rico milho, e no se pode dizer que seja caro.

0 pior  a m vizinhana...    No. Meter-se a

gente em trabalhos escusadamente!

Foi por Deus o Abrunhosa ir ao Brasil, ganhar por l bem contos, aprender como as bandalheiras se fazem, e vir pr termo quilo. De contrrio, quem havia de viver
em Celeirs com um justceiro assim ?

0 Abrunhosa, apenas regressou do Rio -

todo lorde -, ps-se a arejar as notas. Comprou o Tapado, limpou a mina do Reguengo, e queria aumentar a casa. Bem tolo no empregar tanto dinheiro em fragas que
lhe rendessem mais! Mas l diz o ditado: pobre pssaro que nasce em ruim

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ninho. Segue-se que era amigo da sua terra, e a , il se sabe, tinha empenho em fazer as coisas a gosto dele. Abrir uma varanda do lado do sol, altear a cozinha,
ajeirar um quarto de banho, arranjar comodidades. Mas logo por sorte quem havia de ter um palheiro em frente? 0 Leonardo. Os pedreiros a darem comeo  obra, e o
Leonardo rente com duas testemunhas.

- Embarga, tio Leonardo?
- Embargo.
- Muito bem. Ide-vos ento, rapazes. E dscansai. Quem paga  aqui o nosso milionrio...

- No sou milionrio, mas ainda tenho o suficiente para me bater com qualquer.

-Ora essa! Que dvida! Com quem ele se foi meter! Isto de mijar no mar tem o seu qu!

A arrotar postas de pescada, o Leonardo logo no outro dia que tinha o melhor advogado da comarca, e que ganhava, desse por onde desse.
0 Abrunhosa, muito calado, que no fim se veria.

De bico amarelo! Pela mansa, manobrou as coisas de tal maneira, que comprou testemunhas, comprou advogados, comprou juzes, comprou tudo. Mas a srio! Nada de conversa
fiada. Todos ali comprometidos e firmes. E sem o Leonardo sonhar sequer! Na audincia, quando

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contava com um p-a-p-Santa-Justa a seu favor, sai-lhe a coisa furada. 0 Felizardo, o mico que verdadeiramente podia fazer prova, por ser a

pessoa mais velha da terra, que no sabia, que ao certo, ao certo, no podia afirmar. A Bernarda, que tambm ao cabo e ao resto no conhecia a questo. E o Freitas,
esse ento disse redondamente que quem tinha razo era o Abrunhosa.

0 Leonardo parecia um bicho, a bufar. Era v-lo pelo corredor a cabo, para c, para l, sem

parana, como um lobo num fojo. Dantes, naquelas ocasies, espanejava-se todo, de mos atrs das costas, como se estivesse em sua casa. Agora, com o rabo entalado,
gemia. Traidores! Mas que os metia a todos na cadeia! Se metia! Com quem cuidavam eles que estavam a brincar? De resto, a procisso ia ainda no adro. No cantasse
l o sr. Abrunhosa vitria antes do fim da festa! Ento o Dr. Vaz no valia nada? Deixassem-no falar, e veriam. Esperassem-lhe pela resposta.

E aqui  que foi a bomba. 0 Dr. Vaz tinha a lngua vendida como os outros. Nas alegaes, que sim, que no, que torna, que deixa, e, para encurtar razes, que pedia
justia. Claro, os Juzes fizeram-lhe a vontade. Deram direito ao Abrunhosa.

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0 Leonardo, ainda a sentena estava no

meio, que apelava. Havia de ir at ao cabo do mundo.

Farroncas tem a minha Joana, mas obras... Ali era meter a viola no saco e nem tugir nem

mugir. Pois se at um cego via que o vento

mudara de feio! Voga bem. Quando o demnio

atenta uma pessoa...

0 Abrunhosa, ao saber que a questo continuava, riu-se. Era de fora, o tio Leonardo! Mas com valentes assim  que ele gostava de se divertir. Para o brasileiro
aquilo at o distraa. Quem no tem que fazer, faz colheres.

No Porto, o Leonardo ganhou. Santo Deus! S lhe faltou deitar foguetes. Um lorpa, que no via que era tudo combinao. Porque em Lisboa, foi de caixo  cova.

A gente no se deve rir do mal de ningum. Mas, quando as coisas passam as marcas,  humano gostar de ver o nariz achatado a certos figures.

- Ento, tio Leonardo, sempre ganhou a

questo? A modos que vi hoje os pedreiros outra vez na obra do Abrunhosa...

0 Campe era dos que em tempos fora tambm cosido e mal pago pelo Leonardo. E gozava a

desgraa do facnora sem d nem piedade...

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-Perdi esta, mas posso ganhar outras, que tem l isso ?

Coitado! Teve quase sempre que ir adiante. E, nisto de tribunais, quem vai  frente  que geme. Depois, com advogados do Porto e de Lisboa no se brinca. Comem muito.
No h quem os vede. Aquilo no  gente de duzentos ou trezentos mil ris.  logo s boladas de vinte ou trinta contos!     -

Segue-se que quando o Leonardo se viu livre da enrascada, tinha tudo em pantanas. Hoje um

lameiro, amanh uma mata...         Desgraadinho. Pobre como Job.

Mas foi um     descanso. Todos lhe podiam arregalar os olhos quando metia a mo no alheio, e cantar-lhas.

- Olhe que agora a justia so duas lombeiradas com um estadulho! Ponha a o que no  seu, se quer os ossos inteiros.

L fazia das tripas corao, pois que remdio! Mas to danado, to viciado na chicanice, que

a ver-se naquela misria em que os tribunais o

tinham posto, no suspirava por outra coisa. Nos dias de feira da Vila, j velho e atoleimado, sentava-se na soleira da porta a ver passar o povo. Como toda a gente
lhe conhecia o fraco, puxavam-lhe pela lngua.

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-Quer vir, tio Leonardo? -No tenho pernas. Se no, bem gostava! Est um dia bendito.

-Bom para semear batatas...
- Quais batatas! Bom mas  para ir pr uma demanda. Com um sol destes, eram favas contadas...

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A VINDIMA

Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. E  noite, na cardenha, o Vitorino, com a namorada ali quase  mo de semear,
no parava sobre a

palha centeia, o colcho de todos. Era um rolar sem tino para um lado e para o outro, que metia aflio.

-  Tu que tens? - perguntava-lhe o Rasga, farto de conhecer a causa do formigueiro.

-Nada... -e continuava a mexer-se, cada vez mais insofrido.

Como troncos derrubados, os restantes homens da roga jaziam estendidos e adormecidos no cho. Apenas os dois amigos velavam, a vigiar-se mutuamente.

-  Vou at l fora - disse por fim o Vitorino, sem poder mais. - No me apetece dormir...

E saiu.

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P ante p, o Rasga fo'_lhe no encalo. E o

que havia de ver ?... Um noivado ao luar, com

a terra empapada de doura a servir de lenol.

Passou a mo pelo restolho da barba, numa

melancolia de faminto sem po, e deixou os flizardos na paz do Senhor. Quando de madrugada o outro voltou  cama, s lhe disse:

-Valha-te Deus, homem! E agora? -Agora caso com ela, pois ento! Isto nem

tira nem pe. 0 que se h-de fazer ao tarde...

Pela manh a vindima continuou. Orvalhados, os bardos de moscatel eram polipeiros de olhos irnicos e coniventes. E a Lcia, sumida no entranado de vides e de folhas,
enquanto cegava aquelas pupilas abelhudas, parecia um rouxinol:

Eu j vi a Tiraninha A beber numa cabaa, Olha a raa da Tirana Que at no beber tem graa.

Ningum lhe levava a palma. Desde a sada

de Lamares    que no se calara mais.  frente da estrdia, de xaile  cabea e cesta no brao, atirava com   a voz bonita pelos montes a cabo, que nem o pai, no
maio, a semear milho.

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0 harmnio repenicava-se todo em redor dela. Os ferrinhos a dizerem que sim, que sim. E o

bombo, apesar da tristeza a que a pele de cabra o condenava, a fazer quanto podia para dar tambm um ar da sua graa.

A lama de cinco meses de inverno, que a

primavera apenas endurecera, era agora uma camada de poeira fofa pelo caminho alm, a

escaldar. 0 sol, depois de empassar as uvas, queria empassar a terra. Invulnervel, porm, o raio da rapariga rompia por ali adiante, com

asas nos ps. E, mal o Doiro apareceu l em

baixo, ao fundo, como uma veia aberta a escoar-se morosamente do corpo ciclpico dos montes, atirou logo:

Foi no Pinho... Ia a vindimar um cacho, Vindimei-te o corao.

Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto, onde a alma corre de fraga em fraga, sempre  vista do cu. Encostas negras, em

escada, cobertas de estevas ou eriadas de zimbro, faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao p.  esquerda, um despenhadeiro de meter medo;  direita, uma
penedia por ali acima, que

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'01

s6 de v-Ia faltava a respirao; ao longe, mortrios escalvados e desiludidos. Mas o grande rio doirado, que a luz da tarde transformara numa barra cintilante,
chamava a si toda a ateno dos olhos, e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada.

Ou porque trazia dentro o fogo da paixo a aquec-la, ou inspirada pela beleza do cenrio., a Lcia punha o corao a voar:

A oliveira da serra

0 vento leva a flor...

S mesmo por alturas de S. Cristvo 

que esmoreceu. Ao passar diante do cemitrio aproado como uma galera de morte no mar verde dos vinhedos, uma tristeza sbita calou-a. Obra dum suspiro, apenas. Da
a nada arrebitou outra vez, e, ao chegar  Arrueda, levava tudo adiante.

Rita, arredonda a saia, Rita, arredonda-a bem...

Nem a cara seca e vermelha do Sr. Berkeley, o patro, lhe meteu medo. Enquanto os mais, num respeito de escravos, se descobriam ou cumprimentavam aquele smbolo
do trabalho e dos ganhos na Ribeira, continuou a cantar como se

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nada fosse, e  noite, ao deitar, ainda trauteava uma moda.

Foi a Guilhermina, j enfastiada, que a mandou calar.

-No ests farta, mulher?! Riu-se e continuou na dela. E agora, ao cabo de quatro dias de azfama, tinha ainda a voz fresca como uma alface. E com segundas...

Eu hei-de te amar, Tirana, Eu hei-de te amar, eu hei... Eu hei-de te amar, Tirana, Duma maneira que eu sei...

Os dois rapazes riram-se, num mtuo entendimento da significao oculta da cantiga. Depois, maldoso, o Rasga comentou:

-0 que vale  que a Tirana tem as costas largas...

Ergueu o vindimeiro, ajeitou-o na troika e foi juntar-se aos outros companheiros, enquanto o Vitorino ficou a olhar com ternura a rapariga, bem feita, desembaraada,
certamente fecundada j pelo seu amor.

Dispersa pela encosta, a roga mais parecia festejar um deus generoso e pago do que trabalhar. Os geios eram degraus do Olimpo, onde

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crescia e se colhia o espirito celeste. Cada cano -um hino de louvor. E os cestos acogulados, que desciam a escadaria de xisto aos ombros dos fiis devotos, numa
fila indiana, sonora e ritual
- a ddiva desse amantssimo Senhor, que s pedia contentamento em troca dos seus frutos.

Dir-se-ia que tudo naquele paraso suspenso se

movimentava ldica e religiosamente. Nenhuma mgoa, nenhum dio, nenhuma desconfiana do futuro. Alegre, a alma de cada romeiro entregava-se pressurosamente ao esquecimento
colectivo que alijara do mundo as misrias e os desenganos. 0 tear mgico urdia desumanizao. E s quando um dos fios da meada emperrava, e havia -um solavanco
no ritmo do cerimonial,  que se

via que uma vontade prtica subjazia ali, vigilante e profana. Ainda o Vitorino no acabara de sair da sua contemplao, j o Seara, o feitor, lhe berrava aos ouvidos:

- Tu andas parvo ou qu? Mexe-te! Ergue e espera-me no armazm, que tens que preparar uma vasilha.

Chora videira,  videirinha ; Chora videira,  vida minha...

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Cantavam todos. E o bombo, com a sua voz pesada, como que dava forma  incorprea harmonia que, descuidada, descia em cascata pelos socalcos.

Chora videira,  videiro ; Chora videira,  meu corao.

No havia tristeza que entrasse naquelas almas. Principalmente na de Lcia, cada vez mais agradecida ao cu pela sua redeno terrena.

Entretanto, porque o deus da abundncia no se cansava de multiplicar o mosto no lagar, para arranjar onde o meter, o Vitorino deslizava submisso pela portinhola
dum tonel, tal as vtimas dos sacrifcios antigos pela boca do drago.

L fora continuava o coro. E o Seara, por causa daquele barulho e do ouvido duro do Sr. Berkeley, quando da a bocado chegou congestionado  vinha e deu a notcia
do desastre, quase teve de berrar.

Foi ento que a voz da Lcia estacou de vez.

Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perptua agonia.

Transida e comandada por to grave silncio, a roga emudeceu tambm.

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S a Casimira velha, desgarrada numa valeira solitria, que no ouvira nada da morte do Vitorino, asfixiado dentro do bojo da cuba, continuou a agoirar a tarde com
o seu lamento fanhoso:

A mulher  desgraada At no despir da saia; No h deigraa na vida Que aos ps da mulher no caia...

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UM CORAO DESASSOSSEGADO

Na tradi!o de Ruives no havia exerQp10 to escandalcoso. Trs homens na vida duma mulher, era como que uma espcie de aleijo moral, de que a prpria terra se
devia envergonhar. Mas a verdade  que a Marciana fizera essa avaria, e ali estava mais uma vez viva, quase sem lgrimas, a despachar o Bernardino, o ltimo marido,
para o cemitrio.

0 cunhado, o Daniel, que tratava da mortalha, movia-se entre o dever e o desesPero. Honrado e alustero, fora casado com uma rm dela, a Isaura, que falecera h
pouco. E aquele parentesco, qlue o obrigava a enterrar-lhe quantos mantilhes arranjasse, custava-lhe os olhos da cara.

-Uma pessoa est guardada para cada convenincia!

- Que hs-de tu fazer!  famlia...

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-Pois a  que me di! Uma deslavada, sem vergonha nem propsitos, e eu depois que a ature...

Desde rapaz que lhe tinha uma antipatia obscura, feita de nadas, e cada dia mais azeda. Namorava-lhe a irm, mas era ela sempre que aparecia primeiro, a pretexto
de o avisar de qualquer conversa que ouvira a seu respeito, de saber se havia ou no comdias na festa de S. Gonalo, de se queixar das bebedeiras do pai. 0 Daniel
agradecia a preveno, dava-lhe a informao pedida ou justificava da maneira que podia as fraquezas do futuro sogro., e cerrava os dentes, mortificado.

- Ests em nsias! - insinuava ela, ironicamente.

-Estou  espera...
- Tem de lavar a loua, primeiro. E porque a no lavava ela, em vez de se pr ali de espantalho ? 0 que vale  que era discreto e paciente. Continuava silencioso,
at que a namorada surgia, tambm discreta e paciente, no cimo da escada, e a Marciana, com ar de troa, os deixava em sossego.

-Nem parece tua irm. Coisa mais reles! -Olha que no. Ests enganado. Mete-se realmente na vida dos outros quando no devia,

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e gosta de levar e de trazer ...  pena. Mas, fora isso,  como o po...

- Azedo! -Tambm nem tanto!       ...
- C por mim no a trago nem com acar!
- Hs-de ver que vos dais bem.
- No me cheira. Nunca gostei de gente entremetida.

-D tempo ao tempo... Infelizmente, o tempo s reforou as razes do Daniel, como a prpria Isaura teve de reconhecer.

Quando se receberam, o raio da rapariga parecia doida. Cantava e danava como se fosse a dona da festa. E toda a gente se espantava

com uma alegria to despropositada.

-  mulher, tem juzo! Olha que quem se

casa  a tua irm!

Ficou pensativa e plida por alguns momentos, como se a acordassem duma anestesia e a dor voltasse. Mas retomou o entusiasmo logo a seguir, e foi a ltima a deixar
os noivos em paz no pobre tugrio onde iam comear cinquenta anos de felicidade. Com os pretextos mais estapafrdios, demorava a partida. Conversava, varria, compunha
e descompunha a travesseira da cama, comia pires seguidos de arroz doce, e assim

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encurtava a noite que os dois desejavam -do tamanho da estrada de Santiago. Por fim, l saiu. E o Daniel, enquanto trancava a porta, desabafou:

- Que custico! A Isaura, sabe Deus com que vontade, dsculpou-a:

- Coitada, tem aquele feitio...     Mas no  por mal.

-Pois olha que se  por bem, pode limpar as mos  parede. A obrigao dela, de mais a mais sendo rapariga, era pr-se a andar adiante dos outros.

-Nem pensou. -Pensei eu, que estava com vontade de a esganar. Se no fosse por serdes vs Senhor quem sois... Bem se diz l, que por causa dos santos se adoram as
pedras!

-No regula bem, coitada. Ningum se mand u fazer...

E tanto no regulava, que um ms depois, do p para a mo, casava-se tambm. Ruives  missa, na sua boa f, e o padre a ler-lhe os banhos! Ficou tudo abismado.
Sem ter havido namoro que se visse, ou suspeita de tal, ia ser mulher do Marcolino.

Zunzuns no povo, porque seria, porque no, mas a verdade  que da a trs semanas estava

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arrumada. Na boda, repetiu-se a cena do casamento da irm. Apenas com a atenuante de que agora todos se conformavam com aquele entusiasmo desabrido. 0 festejo era
dela, fizesse como entendesse. E l que se despedia da vida de solteira como ningum, honra lhe seja. Agarrava-se ao cunhado, que tinha de danar com ela mais uma
valsa, mais outra valsa, mais outra, que o desgraado, ainda por cima com malhada no dia seguinte, parecia um mrtir a ganhar o cu.

- Coisa mais disparatada, nunca vi! - queixava-se ele, a caminho de casa.

A Isaura, sempre conciliante, punha gua na fervura.

- Entusiasma-se e perde-se da cabea. Tanto monta a gente afligir-se, como no.

- 0 que vale  que isto  uma vez na vida! Na sua sensata e honrada tica de cavador, o Daniel plantava cada acto social, seu ou dos outros, com a fundura duma raiz.
No concebia a vida sem horas sacramentais, irreversveis, solenes como uma sementeira ou uma missa.

Mal ele suspeitava que passados dois anos

tinha de tratar do enterro do Marcolino, e, decorrido mais um, estava novamente nos braos da cunhada a danar outras valsas, pois se casava em segundas npcias
com o Carvalheira.

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-Eu benzo-me! At a gente fica no sei como...   Fao ideia do falatrio que para a vai!... - lamentava-se  mulher, ofendido no seu bom nome.

-Tem pacincia. Que se lhe h-de fazer? No penses nisso...

No pensaria, no, se a vida fosse doutra maneira. 0 pior  que no demorou muito que o Carvalheira esticasse tambm o pernil, e a cunhada, Deus lhe desse juzo!,
no tratasse de pr o sentido no Bernardino.

- Eu endoideo com semelhante criatura! Parece que anda de caoada, a querer rebaixar a gente!

- Deixa-a l. Que se governei No vamos ao casamento, e pronto.

0 diabo  que a Marciana, quando lhe deram a entender que no iam  boda, nunca mais os largou. Vinha, chorava, pedia, contava, jurava, que no houve outro remdio.

E o bom do Daniel l teve de aguentar aquilo, a fazer das tripas corao.

Felizmente que o Bernardino era rijo, e os anos iam esterroando as arestas da vida como uma grade niveladora. A brincar, a brincar, os invernos tinham passado. Rua,
a Marciana perdera o ar de mula sem rdea. Vergada ao

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peso dos molhos de lenha e dos cestos de estrume, que o Bernardino, no era para brincadeiras, metia d. Parecia uma alma pecadora em expiao. Mas mesmo assim,
se encontrava o cunhado, toda ela se arrebitava numa conversa sem fim, cheia de calor e de confidncias.

- Que lngua de saca-trapos! Agarrou-me na Silveirinha, que no me largou. A gua da poa a perder-se-me, e ela porque assim, porque assado... Eu j nem a ouvia!

Velha e doente, a Isaura deixara h muito de defender a irm. Quando o homem lhe aparecia esbaforido a queixar-se dela, calava-se e continuava a torcer o fuso e
a cozer os seus males.

- Tomaste o remdio?
- Eu no. 0 meu remdio, agora,  outro...
- Deixa-te de palermices e trata mas  de comer, que o cemitrio tem tempo...

Gostava dela com a mesma frescura dos verdes, anos. E mal tinha olhos para ver como

ela definhava dia a dia.

Comida de dores, morreu logo a seguir, duas semanas antes do Bernardino, que uma pneumonia liquidou tambm. E o Daniel, depois de enterrar a mulher, no teve outro
remdio seno fazer o mesmo ao terceiro cunhado que a Marciana lhe arranjara.

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Com a alma carregada do seu luto ntimo, encomendou-lhe o caixo, chamou padres, assistiu  missa de corpo presente. Mas, quando a

ltima pzada de terra arrasou a campa do defimto, deu largas  sua indignao recalcada:

-Bem escusavas disto, se fosses outra! A Marciana enxugou as lgrimas postias e

levantou a cabea.

-Outra, como? J que    o no compreendia, ou se fazia de novas, no   pagava a pena estar-se a incomodar. De mais a    mais, podia finalmente d-Ia ao desprezo.

Largou    e foi tratar das leiras. Embora os bens agora   lhe no dessem gosto, era preciso granje-los  como at ali. Enquanto se anda neste mundo, no h remdio
seno fazer pela vida. E, mesmo sem a presena querida da velha companheira, l ia tesourando, podando e curando as videiras.

Foi numa tarde de Maio, morosa e melancffica, que a cunhada de repente lhe apareceu no Tapado.

-Andas contra o mldio? -Tem de ser. Houve um silncio curto. -As batatas esto bonitas!

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-Assim, assim. Outra pausa.
- Merendaste?
- Merendei.
- Trazia-te aqui uma pinga... Desconfiado, fitou-a demoradamente. -Que ests a olhar? -Nem sei... -Olha, olha, a ver se descobres!...       vo sendo horas...

Com a mo crispada na alavanca do pulverizador, o Daniel continuava a observ-la.

- Ser possvel?! - perguntou por fim. -E ento? Era alguma coisa do outro mundo?

Desabrido, atirou-lhe o nojo  cara: -No ests farta, mulher?
- No.
- Pois bates a m porta. J te no posso valer. Duas lgrimas comearam a cair pela cara dela abaixo.

-No  o que tu cuidas que me falta. Estou velha, tambm. 0 tempo dessas alegrias j passou.

- Ento no te entendo... - o meu corao que no se cala.  ele que sempre gostou de ti e te queria...

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A REVELAO

Pau para toda a colher em matria de chanatos, o Rodrigo apareceu em Dailo num dia de feira a tocar a gaita dos seus sete oficios - uma flauta de capador, que parecia
um harmnio a cantar-lhe nos beios.

- Temos chuva! Sempre de ironia na ponta da lngua, a Matilde, que lavava a loua, antes mesmo de ver a cara do msico, atirou a dizedela. Depois  que chegou 
varanda. E o Rodrigo, apenas a lobrigou, repenicou-lhe c de baixo uma assobiadela afinada

como um madrigal.

-0 homem  doido! Mas era por uma ave de arribao assim, extica e atrevida, que o seu corao esperava. Reinadia, amiga de uma resposta a tempo e horas, imaginativa,
o ramerro da terra sabia-lhe a caldo sem sal. Todos os rapazes das redondezas lhe

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arrastavam a asa, o Artur principalmente. Queriam lavrar mais uma leira... Bom proveito! E deixava-os penar.

Engraado, aquele, a dar ao pedal da roda como se ela fosse a da fortuna...

-Que diz, minha me: mando-lhe pr uma

vareta no guarda-sol?

- Manda. Enxugou as mos a uma rodilha, foi ao quarto, deu um jeito ao cabelo, mudou de avental, pegou no chuo e desceu as escadas.

- Oia l, tio homem, componha-me aqui isto. -De mil amores! -No  preciso tanto. Basta que seja bem. Ele sorriu com os lbios grossos, que escan-

cararam uma dentadura branca, s, de lobo esfai~ mado, e ela ficou muito sria, a trespass-lo com

dois olhos ariscos e sonhadores.

-Deixe c ver...

Estendeu a mo, onde um anel de oiro falso reluzia, e em menos dum fsforo tinha o servio acabado. E foi durante esse breve tempo de espera, a seguir-lhe o movimento
dos dedos prolongados pelo alicate, que a rapariga tntronizou para sempre na alma a imagem do rapaz.

-Ora prontinho. Est aqui, que  uma perfeio.

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-Veja l!
-  o que lhe digo! Tomo a responsabilidade. -E quanto lhe devo? -No  nada. -Essa agora! Tambm ele, enquanto trabalhava, a fora aninhando no pensamento.

- um presente que lhe fao...
- A que propsito? Nunca me viu mais gorda...

- Algum dia havia de ser o primeiro...

Embora intimamente lisonjeada, reagia instintivamente quela espcie de compromisso repen~ tino.

- Costuma-se dizer que favores de gente honrada no se enjeitam. Mas contas, so contas. Ande l, e deixe-se de brincadeiras.

-J lhe disse.
- Mau! -No seja soberba, menina! Ou  por causa

da insignificncia? Para outra vez ser coisa melhor...

Comeou assim a conversa, e segue-se que nessa mesma noite dormiram juntos. L como arranjaram a marosca, no se sabe. Artes do diabo! 0 dia fora de balbrdia, as
vendas estiveram abertas at altas horas, bbados para aqui,

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ciganos para acol, o certo  que o Rodrigo entrou s tantas, saiu s quantas, e fecha-te segredo 1

Eram fins de Setembro, na fora das colheitas. De manh cedo, quando a Matilde, estremunhada e dorida, chegou  janela, a veiga parecia uma

colmeia. Nas vinhas, as mulheres enchiam cestos, que os homens, em fila indiana, despejavam nas

dornas; e os carros de bois, a escorrer mosto, cantavam depois pela quelha acima numa alegria de ourios carregados. Nos lameiros, os velhos tiravam milho, apanhavam
feijes ou recolhiam abboras. E nos pomares, trepado, o rapazio varejava as nogueiras, coalhando o cho.

- Arranja-te, rapariga! Ou queres ficar a pasmada toda a vida?

Viva, a Genoveva era uma moira de trabalho a granjear os bens que o homem deixara.

t@ -Penteia-te, e trata de acender o lume enquanto eu vou apanhar umas mas para o reco.

Foi, voltou, e a filha no mesmo preparo e no

mesmo alheamento.

-Tu que tens, mulher? -Di-me a cabea...
- Faz uma pinga de ch. Pelo dia adiante, aquela nvoa matinal foi-se dissipando. A tarde, j mal se notava. No dia seguinte, desaparecera. E o aterro do tempo

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comeou a arrasar o valado aberto. S trs meses depois  que tudo voltou novamente ao princpio.

- Pareces-me mais grossa da cinta!...
- Que admirao! Estou prenha...
- Prenha?! Prenha de quem? -Dum homem. A Genoveva quis morrer logo ali. Mas no morreu. A vida pde mais de que ela, e teve de aguentar a filha naquele transe que,
de resto, pareceu afligi-Ia pouco. A estalar o cs da saia, continuava na mesma, a caoar com todos e com ela prpria.

- Diz-me ao menos quem  o pai! -No  o rei, sossegue.
- Excomungada! Com tantos que te queriam para bem... Aquele pobre Artur...

-No lhe faltam burras de carga.  s escolher.

As feies da petiza que nasceu ao fim dos noves meses da ordem no correspondiam a

nenhuma cara conhecida. Por mais que o esprito bisbilhoteiro de Dailo se esforasse, no havia maneira de arranjar cabea de turco a

quem servisse a carapua.

-Foi milagre! Nasceu por obra e graa... -e a Matilde ria-se, a meter o bico do peito nos lbios sfregos e polpudos da pequerrucha, que recebeu na pia o nome de
Natlia.

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Montono e rotineiro, o carro dos anos ia

rodando. De vez em quando um assobio inquietador feria os ouvidos da povoao. A Matilde corria  varanda. Mas no era o Rodrigo.

- Afinal, o Artur veio falar comigo... - come-

ou a me, numa tarde de monda.

- Quer casar com vossemec?
- Parece tola! Contigo, mulher! -E fez-lhe a declarao a si ?!
- Tu espanta-lo! Aquilo  que  uma paixo!...  Diz que pe tudo para trs       das costas...

-Tem boa boca...
- Maldita! Sujas o bebedoiro,         e ainda por cima te ris dos que querem beber!

-H por a muita gua limpa.            Por isso...
- Faz como entenderes. Mas              sempre te digo: no cuspas tanto para o ar! Aproveita, e d graas!

- Graas, ser demais. Mas hei-de pensar... Pensou, repensou, tornou a pensar, correu  varanda mais algumas vezes, e, por fim, decidiu-se.

- Diga-lhe que sim. Casaram pouco depois, e, contra todas as

expectativas, no houve ralhos nem desavenas naquela casa. A Matilde continuou a mesma caoadeira, o Artur o mesmo paz de alma, e, quanto a darem-se, pareciam feitos
de encomenda.

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Ningum os ouvia. Quando chegou a sua

hora, a Genoveva morreu consolada. Deixava a filha melhor do que esperava, os bens em boas mos, e a neta criada, na flor da idade, com vinte e dois anos abenoados.
Do escndalo do seu

nascimento j nem cinzas restavam. Filha do Artur a princpio apenas por comodidade de tratamento, o hbito da designao acabara por legitimar a paternidade. E
ela prpria, que sempre gostara do padrasto, se acostumou a ver nele o verdadeiro pai. Diriga-se-lhe sempre em primeiro lugar, numa contnua e convicta demonstrao
de respeito, embora conhecesse de antemo a resposta s perguntas que lhe fazia.

- Ponho o milho ao sol?
- A tua me que resolva. Desde o primeiro dia que o Artur deixava a mulher ser dona e senhora. Saa de madrugada, voltava  noite, comia, dormia, e no dia seguinte
l ia ele outra vez. Fiel  palavra dada, nunca se referia ao passado. Continuava a ignorar o

nome do rival, mas nem a natural curiosidade de o conhecer dava a demonstrar. Tudo se passava como se tal homem no tivesse sequer existido.

Depois da morte da sogra, que s tantas tivera de trocar as courelas pela cozinha, era a

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enteada que tratava da lida da casa. 0 pessoal cada vez escasseava mais, e a Matilde teve de se agarrar  enxada. Mas a rapariga, felizmente, dava conta do recado.
Agenciadeira, poupada, limpa, no havia defeito a pr-lhe. E a vida corria como um veludo.

- Amanh se me falarem s batatas, que fao? -j sabes a quem tens de perguntar! Preocupada com as decises que teria de tomar no dia seguinte, a cachopa pedia instrues.
Era feira, os dois iam regar, e ficava sozinha a governar o barco.

A me, sempre a mesma brincalhona:
- Se as no quiseres dar, vende-as. -A como?
- A conto de reis. Nem tu sabes que ningum as paga a mais de quinze!

A ceia acabara, fora dita a ltima palavra, podiam ir descansar.

Dormiram, e quando de madrugada o casal, apressado, largou para as Bajancas, j os vendeiros armavam tendas no eir.

Era tambm Setembro e, enquanto varria a

casa, a Natlia ia prestando ateno ao movimento da rua. 0 barulho dos socos a choutar no lajedo aumentava minuto a minuto, um automvel passou a buzinar, o grunhido
de uma vara de leites

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recebia de vez em quando uma admoestao paciente da porca mae que os acompanhava.

s tantas, a melodia dum assobio de capador sobreps-se  barulheira. E a rapariga, que tinha uma travessa precisada de conserto, correu  varanda.

 tio homem! Menina... Espere a, se faz favor. Espero, sim senhora. Era um velhote simptico, remendado, que lhe sorriu com uma grande boca desdentada.

-S isso?

S.  pena. Pegou no pratalho, mirou-o durante algum tempo, fez-lhe uns furos, deitou-lhe trs gatos, limou, poliu, a olhar de vez em quando furtivamente a cachopa
com duas pupilas muito vivas e fundas.

- Ora prontinho. Aqui tem. -Quanto lhe devo?
- Est pago. -Pago por quem?
- Eu c me entendo... Adeus, menina. Muita sorte  o que lhe desejo.

Sorriu-lhe com as rugas todas da cara, passou a gaita pelos beios grossos, arrancou dela uma espcie de uivo dorido, e sumiu-se na multido,

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enquanto a rapariga, parva, continuava especada no mesmo stio.

- No me quis nada pelo conserto! - desabafou com a Anglica que passava.

- 0 trabalho tambm no foi muito.
- Deix-lo! Sem poder tirar o velho da lembrana, a

cachopa passou o dia numa agitao que nunca

conhecera. E  ceia, quando a famlia de novo se reuniu, foi a primeira coisa que contou.

- Hoje aconteceu-me uma partida... Mandei compor a travessa rachada a um amola-tesouras que apareceu a, e o diabo do homem no me quis nada pelo servio! Fartei-me
de teimar, e no houve maneira.

- Ainda h almas caridosas... - largou-lhe a

me, a disfarar um baque que lhe dera o corao.

0 padrasto  que se fez de novas.
- Ah, sim? E ficou bem?
- Mal se conhece. -Ora mostra l. A Natlia foi ao - louceiro e exibiu a obra.
- Deixa ver mais perto... Na sua inocncia, a cachopa estendeu o brao. E o Artur, num gesto seco, brusco, arrancou-lhe a travessa da mo, e, sem uma palavra, escacou-a
no lajedo, da lareira.

200

0 DESAMPARO DE S. FRUTUOSO

No tinha nenhuma razo particular para estar grata a Deus ou a qualquer dos membros da sua corte celestial. A no ser que considerasse um favor o simples facto
de viver... Esse privilgio, porm, fora dado a tantos, inclusivamente a toda a casta de bichos e ervas, que francamente! No desfazia na obra de ningum,  claro...
Malucava, apenas. Zorra, criada aos baldes, sempre arrastada, mal se poderia considerar uma

pessoa humana, quanto mais uma criatura reco-

nhecida ao criador! Sabia que S. Frutuoso no metia prego nem estopa nesse captulo da gerao dos mortais. A regedoria dele era outra.

Mas tambm no sentira ainda que os poderes de que ele dispunha a beneficiassem. Pedira-lhe ajuda na ocasio em que uma pragana lhe cegara uma vista, e nada! Prometera-lhe
uma vela na altura da pneumnica, e foi o que se viu: ia

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deitando os bofes pela boca. Nascera-lhe no sei qu num seio, rogara-lhe entre o clice e a hstia a esmola da cura, e o caroo cada vez cresia mais. De maneira
que, a falar franco, no devia favores a ningum. Em todo o caso, doera-se de ver o pobre do santo naquele preparo. Que, considerando bem, a chuva caa de cima...
E como parece que no cu  que estava o governo do mundo, no custava nada a quem l morava... Alm de ser uma obra de caridade para com

os que viviam em corpo e alma c neste vale de lgrimas. Quatro meses de invemia, sem uma

aberta, sem uma rstia de sol, neves, neves, e, agora, aquele dilvio seguido! 0 gado a morrer

de fome nas lojas, a povoao sem um graveto de lenha para se aquecer e enxugar, o rio Torto a levar os lameiros...   Um lindo servio, no haja dvida!

Como no era de arcas encoiradas, falara ao prior no destempero duma coisa assim.

-E que queres que te faa? Sabia l! Mas j que ele representava Cristo na terra, podia, talvez... Bem, a gente entende-se por palavras...

- No h nada que ande tanto  vontade de Deus como o tempo, mulher! Nunca ouviste dizer?

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- Eu no senhor! -Pois  pena. Pronto! Se era assim...      Ao menos ficava esclarecida. Em todo o caso, punha as suas

dvidas quanto s vantagens, humanas e divinas, de tanto frio, tanto vento e tanta chuva. E chmassem-lhe maluca  vontade. No concordava, no concordava! Se vivia
da caridade alheia, tinha de pedir. Ora, se at os novos e sos se acovardavam de pr o nariz fora de casa, que diria ela, velha e doente, e sem um trapo de confiana
a cobrir-lhe o corpo! Em Reboredo j se sabia que nada feito: negavam-se todos. Que tivesse pacincia, que Deus a favorecesse, como se os ouvidos fossem as tulhas
da barriga!... Portanto, se queria escorar o estmago, tinha de navegar. Mas quem se ia meter a um temporal daqueles?! Olha, deixava-se estalar com fome engrunhada
no cortelho do Canavezes, a fazer companhia s ovelhas. Era, de resto, a nica regalia de que gozava: nos dias em que o fomo do povo no cozia, e dentro dele se
gelava como ao luar, podia dom-r nas cortes, sem licena dos donos. Nisso, honra seja feita aos

de Reboredo. Chegava das suas peregrinaes, desandava o gravelho da loja de qualquer, entrava, e tinha sempre s ordens uma cama enxuta de

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palha e o bafo do rebanho a cobri-Ia como um cobertor. Mais: nem sequer a acordavam de manh, quando abriam a porta ao gado, o que, infelizmente, j no sucedia
h muito. A gua era tanta, que s quem se quisesse afogar e afogar os vivos. 0 que ela zoava, l fora! Como havia o desgraado do S. Frutuoso resistir quilo! Fiada
na caridade humana, fartara-se de pregar, a pedir providncias. Mas qu, ningum quisera saber! Que se governe, respondiam-lhe todos. Tem a faca e o queijo na mo...
Talvez por no terem visto o que ela vira...    Vinha a passar, abrigara-se duma btega mais valente no alpendre da capela, dera uma olhadela l para dentro, e at
os olhos se lhe arrasaram de lgrimas ao encarar o msero, alagadinho, encolhido como um pito rio. Sempre era um santo, com mil diabos! Pois chovia-lhe em cima
como se estivesse no meio da rua. Metia d! Os pingos batiam-lhe na careca, escorriam-lhe pela cara abaixo, derretiam-lhe a pintura, transformavam-lhe o hbito num
borro esverdeado, e alastravam aquela nojeira pela toalha do altar.

Dera imediatamente o alarme. Valeu bem! Foi o mesmo que nada.

-Se v que est mal, que se mude. Ou ento que componha os astros... - respondera-

-lhe o Faustino, que, embora fosse mesrio, no perdoava ao orago o atraso em que tinha as sementeiras.

0 abade tambm nada adiantou. Como de costume, mijou sentenas. Que torna, que deixa, e por aqui me sirvo. Ora, se os responsveis procediam assim, no lhe competia
a ela incomodar-se, de mais a mais estonada de fome

e sem culpas no cartrio. Evidentemente que era crente. Pudera! Acreditava que h-de haver uma lei que nos governe. Desobrigava-se na

Quaresma, ia  missa quando podia, persignava-se ao deitar - estava em regra.         Isso, porm, no queria dizer que tivesse de se meter em brios de zeladora.
Mas o corao s vezes

tambm manda. E o dela compadecera-se humanamente da sorte daquele desinfeliz que nem

um cortelho vedado avezava para se abrigar. Apenas por essa razo se tirara de cuidados e dera andamento  ideia de o acautelar de qualquer modo. Tecer a croa,
francamente, custara-lhe pouco: at lhe servira de entretm. Agora subir a serra aos empurroes ao vento e a furar as

btegas, isso sim, chegara para afligir! Mas acabou-se. L vestira o gabinardo ao miservel, e, apesar de encharcada, podia finalmente dormir em paz. 0 coitado,
metido no varino de junco,

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parecia mais um pastor do que outra coisa. Pacincia. Honra e proveito... Chuva no corpo no lhe entrava mais, que lho garantia ela. Agora a

respeito de apresentao... De resto, isso mesmo tinha remdio. Enquanto durasse o temporal, ningum o ia visitar, estivesse sossegado; e, logo que o tempo melhorasse,
podia despir o capote e pr-se outra vez bonito para atender a freguesia.

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0 CASTIGO

Foi na noite de S. Joo que o Bernardo lhe bateu  porta, aflito.

-Tenha pacincia, doutor, e venha-me ver a patroa. Aquilo parece que est ruim...

Fez-se de novas. -Aquilo, o qu?
- 0 parto.
- Ela andava grvida? Nunca reparei. Eu tambm no a vejo h meses...

- Com os outros nunca houve novidade. Mas desta vez... Acho que tem a criana atravessada. Pelo menos  o que diz a Tia Rosa...

- Desatravessa-se.   Se for apenas isso... Quando principiaram as dores?

- j ontem. -E demoraste tanto ... ?!
- Sempre  espera, a cuidar que a coisa se iesolvia... Costumava despachar-se sem dar trabalho a ningum...

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-Bom, eu passo por l.  s o tempo de preparar os ferros.

De preparar os ferros... e o nimo. Ora ali tinha, para no ser palerma! Todo finrio, a cuidar que arrumara o assunto na ocasio... Que azar o

raio do mido encravar-se na barriga da me! Maldita hora em que se metera com semelhante mulher! Mas qu! Quem  que resistia? Que desapertasse a saia, despiu-se
toda. Di aqui? Mais abaixo, mais abaixo...      Ai, que me faz ccegas!... Pronto: se a trazia fisgada, se j vinha disposta  maroteira...   Santo, com franqueza!...
0 mal todo  que a danada parecia terra de semeadura! E quando  terceira ou quarta vez lhe veio com lrias, que estava grvida e o filho era dele, s viu uma sada:
pr fim ao idlio no mesmo instante. Muita pena, muita pena, mas responsabilidades, no. Tinha marido, demais a mais...  Portanto...   Alm de que, num caso assim,
nunca se sabia ao certo... Adeus! Adeus! Surpreendida e despeitada, a alma do diabo, a princpio, ainda tentou reagir. Mas arriscava muito num jogo s claras. 0
homem, valente e assomadio, a quem devesse, pagava. Fortalhao e com tal gnio, nem se chegava a com-

preender que o enganasse. Mas ela  que l sabia... Segue-se que teve de se acomodar. Quando se

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cruzavam na rua, pareciam dois desconhecidos. Ele  que a olhava de soslaio, a inventariar-lhe a cintura, cada vez mais grossa. Como elas se arranjaml

j a caminho da casa do Bernardo, ainda o

rodzio interior continuava a girar. Como elas se arranjam, realmente!

Quando entrou, a Silvana no se deu por achada. Gemeu, e queixou-se como uma doente qualquer. _ Estou numa cruz, senhor doutor!

Aliviado e desapontado ao mesmo tempo, tentou iluminar o acolhimento impessoal com o

sol de uma reflexo cptica e recndita: at onde podia ir a dissimulao feminina! Todas iguais! ...
0 que vale  que as conhecia... Se conhecia!    ... E deu prazenteiramente inicio  prestidigitao profissional.

-Que exagero! Uma coisa que no presta para nada! Valha-a Nossa Senhora. Daqui a

pouco passa tudo e j nem se lembra.

-Os santos o ouvissem. Mas no. Tenho

c um pressentimento...

- Sempre cuidei que fosse mais corajosa! Que desanimada! Ora vamos l ver isso...

Descobriu-a, apalpou e auscultou a barriga, e no pde disfarar uma sombra reticente na voz.

-Pois . Realmente...

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-V como eu tinha razo?! Est mal encaminhado. Eu sentia! Nunca tal me aconteceu! Fartinha de puxar...

-A gente encaminha-o. Sossegue. Pediu gua e sabo, tirou o casaco, arregaou a camisa, lavou-se e desinfectou-se, e comeou

a actuar.

Com os brios acicatados pela inslita recepo, tentou esforadamente cumprir a promessa feita. Mas no pde ir alm da boa vontade. A doente berrava, curtida de
dores, defendia-se, e nenhuma manobra resultava. Obrigado a reconhecer a sua impotncia, retirou a mo a pingar do poo escuro, e deu-se por vencido.

- Temos de a levar para o hospital.  preciso anestesi-la.,, e s l.

- 0 senhor  quem manda. Se v que no pode fazer o servio aqui...

- No. Meteram a parturiente num carro, e os vinte quilmetros de caminho foram de bom angrio.
0 automvel rodava suavemente e a Silvana emudecera. De vez em quando o Bernardo suspirava. E o mdico, solcito, deitava umas gotas de blsamo na ferida renitente.

- Nestas ocasies, o essencial  manter a calma. No ferver em pouca gua...

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Passaram Gouves, S. Cristvo, Penalva. Em Soutelo havia arraial no largo.

- Bonitas ilun-iinaes!
0 entusiasmo festivo caiu mal no ambiente soturno do veculo. E o mdico disfarou o

deslize com a nuvem de fumo dum cigarro.

- Ora c estamos ns chegados! Vo ver em

que instantes o assunto fica arrumado.

Doces palavras, que os factos, infelizmenie, no confirmaram.      Na sala de operaes, o Dr. Baltasar, que fora avisado pelo telefone e

esperava a doente, em vez de resolver o caso, complicou-o ainda mais. Provocada pela violncia das contraces ou por qualquer manobra canhestra, havia uma rotura
do tero, onde a mo do feto se introduzira. E quando o velho parteiro, ao cabo de grandes esforos, conseguiu fazer a verso e extrair a criana, j morta, de resto,
foi como se destapasse um tanque. Um jacto de sangue bateu-lhe em cheio na cara, inutilizou-lhe os culos e ensopou-lhe a bata.

Sem a serenidade de outrora que o tornara conhecido, em plena decrepitude, diante do contratempo, o obstetra descomandou-se. Numa covardia senil, voltou pura e simplesmente
costas  catstrofe. _  0 colega tome conta disto, que eu no posso mais.

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-Pelo amor de Deus, senhor doutor! No abandone assim a doente! Opere-a, faa qualquer coisa! ,

- Desisto. Desisto. Tenha pacincia e resolva o problema da maneira que entender.

E desarvorou. Num terror de nufrago, o Dr. Daniel ps-se a injectar coagulantes a torto e a direito, a meter

mechas, a comprimir o ventre com toda a fora. Nada. Era chover no molhado. A hemorragia inundava tudo.

- Mais soro, menina! E traga compressas maiores...

A Silvana acordara j e, do fundo da sua

exausto, veio em socorro daquela angstia. - escusado tanto trabalho. Ningum me

pode valer. Foi castigo...

- Cale-se! Ao cabo de meia hora de luta, calafetado de todas as maneiras, o boeiro cedeu finalmente.

0 mdico respirou fundo. -Parece que estamos safos! - proclamou, mais para se convencer do que convencido.

0 sangue parara, realmente. Mas o curso do rio mudara apenas de direco. Era dentro do prprio ventre que a torrente agora desaguava.

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-Eu sinto-o correr  mesma... -avisou a Silvana.

- Cale-se, j lhe disse!
0 pulso caa a olhos vistos. Uma palidez de cera cobria o rosto da infeliz.

- Cardiazol, depressa!
- Quero o meu homem ao p de mim! - pediu a Silvana, com sbita energia.

- Mande-o entrar. Chamado pela enfermeira, o Bernardo, hesitante, assomou  porta do quarto e aproximou-se do leito p ante p.

- Ento?
- Escoo-me...  uma torneira aberta... Num gesto gracioso, ainda feminino, estendeu a mo esquerda, que o marido timidamente segurou. A direita apertava j, crispadamente,
a do mdico.

Com os dois homens assim presos a si, um de cada lado da cama, pareceu recobrar as foras. Um fulgor estranho iluminou-lhe os olhos.

- Vou morrer, Bernardo, e quero-te pedir perdo...

-No tenho nada que te perdoar   ...
- Tens. Enganei-te muitas vezes  ...
- Ora, enganaste!
- Enganei.

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- Deixa l isso, agora...
- Ouve-me, embora te custe. Preciso de limpar a minha conscincia antes de prestar contas a outro juiz...

- Sossega, sossega... -No merecias as traies que te fiz. Fui uma porca. Este filho nem sequer era teu...

Aterrado, o mdico, com um gesto, mandou sair a enfermeira.

-A primeira vez que te faltei ao respeito foi com o Avelino. Logo no primeiro ano do nosso casamento. Apenas nasceu a pequena. Nem sei como aquilo comeou... Perdoas-me?

- Perdoo.
- A segunda foi com o Guilhermino. Andei metida com ele seis meses certos. Perdoas-me?

- Ests perdoada. -A terceira... Arfava.
- Oxignio, menina! A ordem de comando bateu sem eco na cal das paredes. E o Dr. Daniel, num vislumbre de salvao, tentou libertar-se, a pretexto de ir chamar 
porta. Mas a garra da moribunda manteve-o seguro no pelourinho.

-...Foi com o Loureno. Vinha eu de Fermentes... Perdoas-me?

-Perdoo tudo.
0 pingue-pingue do gota-a-gota ia medindo os segundos interminveis. A palidez do rosto da agonizante era j cadavrica. As palavras saam-lhe dos lbios quase ciciadas.

0 mdico, a suar em bica, com a mo livre apalpava-lhe o pulso. Em frente dele, o Bernardo parecia um fantasma.

- A quarta, a ltima  ... Mal eu futurava que havia de morrer por causa  ...

Como um condenado que enfrenta a hora final, o Dr. Daniel retesou a vontade.

A moribunda encarou-o durante alguns instantes, voltou a olhar o marido, e murmurou a custo:

- Foi com o... Um n de silncio apertou-lhe a garganta. De olhos esbugalhados, ficou hirta, a fitar o tecto numa espcie de espanto alheado.

Num terror que no tinha o mesmo sinal em ambos, debruaram-se os dois sobre o cadver.

- Acabou-se-lhe o sofrimento... - murmurou o mdico, exausto.

- Acabou... - respondeu o Bernardo, a rilhar

a voz.

- Era preciso descer-lhe as plpebras...
- Pois era. Mas eu no tenho coragem.
- Nem eu.

214

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0 P TOLO

Braves tinha-o de reserva. Era o seu lado pragmtico, a sua face deslavada e oportunista. Todos se riam dele, o escarneciam ou lhe ignora-

vam a existncia, se vinha a talho de foice falar em brio e dignidade. Mas  hora menos pensada, na primeira apertadinha, numa destas aflies que tem qualquer povo
que se preza, o instinto colectivo de conservao elegia-o por unanimidade padroeiro da honra do convento. E l ia o pobre do P Tolo em misso de paz fingida ou
de aparente submisso, conforme as necessidades.

As relaes de Braves com Soutelo, sede do concelho, desde tempos imemoriais que danam na corda bamba. A vila no perdoa  aldeia o

ar lavado que lhe dignifica a pobreza, a feira dos nove, sem comparao nas redondezas, a bela situao que disfruta no centro do municpio, e, sobretudo, a rebeldia
que se estampa no rosto msculo dos seus filhos. Homens de timbre e

217
landreiro, rijos de corpo e alma, ningum se meta com eles se no est disposto a arriscar a vida. Ora como os de Soutelo so doutra natureza -pemsticos, troca-tintas
e an-gos de coser o

semelhante agachados atrs do balco das repartioes-,, nunca se entenderam. Da o calvrio dum convvio difcil e atormentado, que recorreu

durante muitos anos  diplomacia irresponsvel do P Tolo. Atravs dela, nem os de Braves se sentiam diminudos no reconhecimento da vassalagem obrigatria, nem
os de Soutelo deixavam de receber o preito devido. E quando depois, em horas calmas, o caso era discutido, ambas as partes tiravam proveito da baixa qualidade da
deputao. Uns afirmavam que no lugar no havia melhor; e os outros que, para quem era, bacalhau bastava.

0 certo  que, bem ou mal, desde rapaz que o P Tolo ia salvando a situao, sempre economicamente e com xito. Bastava embebed-lo, meter-lhe uns tostes no bolso
para manter por l,  fora de mais vinho, o fogareiro aceso, e recomen-

dar-lhe que desse vivas  Patuleia a torto e a direito. Foi assim nas guerras entre progressistas e regeneradores, no Trinta e um de Janeiro, na implantao da Repblica
e na prpria inaugurao do busto do Conselheiro Azevedo. Pena as vidas

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serem to curtas e acabarem s vezes no pior momento.

Ningum, fora de Trs-os-Montes, o sabe, mas

declara-se j: Braves tinha o seu qu de talassa. Razes? Bem, o rei passara por l numa das suas visitas ao Norte, acenara muito com a mo, era loiro...   Sem
falar no exemplo do Senhor Nbrega, o manda-chuva da povoao, que marrava como um toiro se via  frente o barrete frgio. Ora quando na Traulitnia aparece a tropa
vinda no se sabe de onde, os comandantes se amesendam em casa do figuro, e a           soldadesca, nos armazns do mesmo, se poe a esvaziar os tonis num regabofe
universal, pareceu a todos que se

tratava do Advento. E pronto: tocaram o sino a rebate, a mulher do Zebedeu largou pela veiga fora a gritar ao homem que viesse ver a monarquia, e foi o fim do mundo.
Msica e foguetes, dana desenfreada a noite inteira, e, s tantas, no se sabe dada por quem e posta por que mo, apareceu hasteada na coroa do negrilho a bandeira
azul e branca.

No dia seguinte, o exrcito glorioso marcha sobre Mirandela, h combate, morrem alguns heris, mas, finalmente, o pas tinha a govern-lo a excelsa figura de Sua
Majestade. Pelo menos

assim o garantia a Isaura, fmea do Senhor

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Nbrega, a beber do fino na etiqueta dos tratamentos.

0 pior  que de repente a coisa muda. A tropa fandanga  derrotada., e a temos ns Braves metida numa arriosca dos diabos. Iado no calor do entusiasmo, o bocado
de pano ali ficou esquecido. Se algum, pela calada da noite, tem a feliz ideia de o arriar, o caso talvez passasse despercebido. Mas ningum se lembrou de tal,
vem a reviravolta, e chega ordem de Soutelo para que o

regedor apeasse imediatamente aquele smbolo de rebelio contra a ordem estabelecida, e o fosse entregar  sede da administrao na quinta-feira prxima, dia em
que se festejava na vila o regresso  normalidade constitucional, com sesso solene e discursos. Isto, enquanto no se procedia a um

rigoroso inqurito que apurasse as responsabilidades.

Por azar, o regedor era precisamente o feitor do Senhor Nbrega. E, claro, o ricao travou-lhe a andadura.

-Tu no ds um passo. A bandeira est muito bem onde est. Eles que a venham buscar.

Foi quanto bastou para se armar a trovoada. De um lado, que sim, do outro, que no, o povo comea a tomar calor, e quem  que se atrevia a entrar em Braves e subir
ao negrilho? Armados

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de arcabuzes, sacholas, forquilhas e foices, os de l guardavam a povoao como ces. A bandeira a drapejar na crista da rvore perdera toda a

significao partidria, para ser um ponto de honra da resistncia da terra  prepotncia de Soutelo.

Intimaes da capital do distrito, ameaas de Lisboa, e nada. Uma tentativa da Guarda foi rechaada a tiros,  pedrada e a estadulho. E, claro, o Governo ameaou
de bombardear a terra. Deu trs dias de espera, os que faltavam para a festana em Soutelo, e depois que ningum se

queixasse. Falsa ou verdadeira, a notcia circulou assim.

Protestos, imprecaes, fanfarronadas, mas,  medida que as horas passavam, a bazfia comeou a esmorecer. Numa reunio de emergncia, convo-

cada na vspera do prazo indicado, chegou-se  concluso de que o mais sensato era acabar com a fantochada. Tirar o farrapo c para baixo e

mand-lo entregar em Soutelo. No valia a pena morrer por duas varas de linharu.

Mas quem se prestava a ser o Egas Moniz da rendio?

0 regedor, sempre preso  argola do Senhor Nbrega, que via na hun-lhao do caseiro a sua

prpria, que no contassem com ele; o Lcio,

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que batessem a outra porta; o Moura, idem, idem...

E aqui  que, mais uma vez, os prstimos do P Tolo acudiram  conscincia de todos.

Simplesmente, o P Tolo, revelho e adoentado h muito, lembrara-se de dar a alma ao Criador precisamente naquela manh. Depois da assembleia, ia o sacristo tocar
a finados e o Silvrio dar parte ao registo.

E foi nessa altura que o Anelhe teve uma inspirao.

- Suspendei l isso. Fazei de conta que ele no morreu por enquanto.

Essa agora!  que me veio uma ideia. Quem vai levar a bandeira sou eu.

-Tu?!... -e todos se espantaram daquela sbita abnegao.

- s dar um jeito  cara... Ningum percebeu. Tanoeiro de seu oficio, o Anelhe era tambm comediante nas horas vagas. Entremez, auto, drama, farsa ou estrelquio
que houvesse na terra, l estava ele no primeiro papel. Capaz de mudar de semblante como quem muda de camisa, imitava um qualquer, que ningum os distinguia.

- Faz l de Fulano!

222

Dava meia volta, dava outra meia'    e j estava. A mesma voz, o mesmo tique na cara, os mesmos ombros cados, tudo chapadinho. At parecia engordar de repente,
se o caso o exigia. E foi ir a Soutelo na figura do P Tolo que se lhe meteu em cabea.

- Fao de conta que sou ele, e est o caso arrumado.

-E se do conta?
- Eles so burros. Deixai-me c manobrar o barco.

Quando no dia seguinte o virar- aparecer de perna lzara a abanar, de bigode cado sobre a beiola e chapu cabaneiro enterrado nas orelhas despegadas, nem queriam
acreditar. Parecia o

P Tolo ressuscitado.

Grandes admiraes, muitos ainda duvidavam, mas os factos estavam  vista.

E o Anelhe, sem se descompor, mandou um

neto subir ao negrilho, agarrou na bandeira endemoninhada, enrolou-a, desfraldou ao sol a verde e vermelha, deu um viva  Repblica e largou.

Chegou a Soutelo pelo caminho velho, do seu

vagar e no seu normal. Mas logo diante da primeira casa da vila comeou a dar ao p. Subiu neste preparo as escadas da Cmara, entrou no

salo nobre das sesses, alinhou ao lado dos repre-

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sentantes das freguesias, aclamou, bateu palmas, e, na hora prpria, foi apertar a mo do presidente e entregar-lhe o testemunho da rendio.

Acostumados  presena daquele bonifrates em todos os grandes momentos da vida cvica da vila, os de Soutelo engoliram a plula sem reparar no tamanho. Apenas o
conservador do Registo Civil, mais papista do que o Papa, se aproximou do Anelhe e o interpelou:

- Vocs no tinham em Braves ningum mais decente para mandar?

Resposta pronta do Anelhe:
- No, senhor.       Para estes servios, sou

sempre eu.

0 outro meteu o rabo entre as pernas, e o

plenipotencirio, acabada a funanata, regressou consolado a casa.

- Pronto. Amanh de manh j se pode dar andamento ao defunto. Cuidado com o figuro dos assentos.

No outro dia,  entrada da repartio, o Silvrio ainda sentiu tremer-lhe a passarinha.           Mas, caramba, da firmeza com que se houvesse dependia o bom xito
de toda aquela comdia. E puxou pela coragem.

- Antonio da Silva Osrio, diz voc? - estranhou o Dr. Acreio.

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- Exactamente.
- No era um a quem chamavam o P Tolo?
- Exactamente.
- Essa agora! Eu vi-o ontem na sesso! At

lhe falei.

-Pois viu, viu! Mas j l est a dar contas

a Deus.

- Como pode ser isso?! Parecia vender sade...

-A vida  um engano... -filosofou o de Braves.

- E ento morreu de qu?
0 Silvrio lembrou-se do Anelhe, riu-se por dentro, e resolveu completar-lhe a obra. Pigarreou e respondeu com o ar mais safado que pde arranjar:

- Olhe, de vergonha, coitado...

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INDICE

pgs.

A Maria Liona     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             13

Um roubo     . . . . . . .   .  . . . . . . . . . . . . . . .          25

Amor   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .               37

Homens de Vilarinho     . . . . . . . . . . . . . . . . . ..           45

* cavaquinho     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             57 * ressurreio   . . . . . . . . . . ... . . . . ... . . .             63

Um filho     . . . . . . . . . . . .     .  . . . . . . . . . .        71

A promessa     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             81 Maio moo      . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             95

0 bruxedo      . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            103

A paga    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             111 Inimigas     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            119

Solido   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             127

* ladainha     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            139

* vinho   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             145

* lugar de Sacristo    . . . . . . . . . . . . . . . . . .           153 justia   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .             163 A vindima
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            173

Um corao desassossegado      . . . . . . . . . . . . . . .          181 * revelao    . . . . . . . . . . . . . . . .       .  . . . . .     191 * desamparo de
S. Frutuoso,       . . . . . . . . . . . . . .         201 * castigo    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .              207

* PTolo     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .              217

227
